Por Fabricio Duque
compilação com interferências

Em uma de suas colunas, Arthur Dapieve, do jornal O Globo, ensinou sobre a cultura “Edo”, a do Mundo Flutuante (ukiyo), termo budista homófono ao “mundo desesperado”, que designa o “inferno terreno e todas as coisas que o homem deveria se desapegar para se livrar do desejo e da dor”, “divertindo-se em flutuar”, tema que influenciou inúmeros livros, o teatro “Nô” (uma forma clássica que combinava poesia e música), como “Contos do Mundo Flutuante”, de Asai Ryoi, “Declínio de Um Homem”, de Osamu Dazai e o filme “Viyon no Tsuma”, de Kichitaro Neghishi. Na apresentação do livro “Amor entre Samurais”, de Ihara Saikaku, essa filosofia enaltece apreciar a arte e a a cultura, e a aceitar, tolerar e compreender a homossexualidade como forma de crescimento (amadurecimento), assim como no comportamento social da Grécia Antiga. A elegância e a estética eram altamente valorizadas, em tradições clássicas estéreis, por um romance platônico, de amor imutável, de morte como solução, de limpeza profunda, poético, respeitoso (mas também contraditório ao querer individual, egocêntrico e unilateral do próprio amar), puro, passional (de sangue demasiado ardente e juvenil), requintado, digno, picaresco, por heróis aventureiros em submundos do prazer licencioso, apaixonadamente devotado à pederastia e de destino inconstante. Cada um observava detalhadamente os gestos e condutas dos “rapazes bonitos” (belos, graciosos, corajosos, destemidos) que são encontrados pelos olhos, característica tida como eterna e incurável fraqueza por não haver resistência, e pela dramaticidade (“uma noite de amor convosco seria mais preciosa do que mil anos de vida”). “O amor dos rapazes não é mais, portanto, que um sonho passageiro. Ao amanhecer, não sabemos ao certo se viveremos para assistir ao anoitecer”, dizia-se. Em uma das edições da Revista da Livraria Cultura, Karina Buhr fala sobre a arte da “Flutuação”. “Esperar a poeira baixar, o pensamento acalmar. Vender aos montes, dar milho às galinhas, deixar as gatas com o vizinho gato”. Assim, com esse extenso preâmbulo, faço uma digressão referencial à vida e à obra do poeta brasileiro Leonilson, que seguiu seu “mundo flutuante” no meio de “meninos lindos” e que se tornou um exímio “samurai” da própria existência, flutuando livremente pela geografia e pelos desejos, mas sempre retornando a seu porto de origem. Na mesma edição da revista, a irmã dele, Ana Lenice Dias – a Nicinha, tenta traduzi-lo, por poesia, por lembranças e por adjetivos. “Fazia da arte seu norte, o seu lugar no mundo”, “Observava e dava chance à curiosidade”, era “um homem-peixe”, em que nossos “pais se conheceram em um navio”, e ele “é filho, ele mesmo, de uma viagem” e “gostava de qualquer coisa que o levasse a algum lugar”. Suas obras representam uma “cartografia (de si mesmo) do afeto: pela amizade e pelo espírito romântico” por uma “vida construída entre o nomadismo enraizado e o apego à família”. Leo era a “materialização do mito do deus Atlas, sempre carregando o mundo nas costas” e “se protegia de qualquer golpe de traição que pudesse sofrer de sua memória” (por isso a constância em produzir fitas – documentos, relatos, inquietações”. Ele “não dava um passo sem deixar as pistas para que o encontrassem: como na fábula de João e Maria, o caminho podia ser longo, mas nunca sem os rastros a serem descobertos” e “usava a ficção como recurso de sofisticação do cotidiano, utilizando como matéria-prima”. “Sua arte era ininterrupta, e ele conseguia fazê-la de qualquer lugar” em “diários: confidências e recados para si mesmo, uma espécie de inventário de desejos, principalmente sobre os ‘meninos lindos’”. Sim, quanto mais penso no filme de Carlos Nader, “A Paixão de JL”, sobre esse incrível protagonista em questão aqui, mais condenso unilateralmente minha percepção de que Leonilson não viveu, e sim flutuou.

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