Por Fabricio Duque
Direto do Festival de Berlim
18 de fevereiro de 2016
Há uma descomunal diferença entre a ideologia da autoralidade e pretensão. O cineasta filipino Lav Diaz, conhecido por seus longuíssimos longas-metragens, que chegam a duração de onze horas, como é caso de “Evolução de Uma Família Filipina”, sofre o preconceito depreciativo da “repulsão” de suas obras por aqueles que já o definem como tedioso sem até mesmo assistir sua filmografia. Não mesmo. Definitivamente o “boring” não pode ser utilizado como argumento de exclusão. Sim, é longo, porque se precisa do tempo real da máxima contemplação-sensorial de micro-ações (esperando para se completarem) e sentimentos personificados dos personagens a fim de imergir completamente o espectador na história objetivada. Sim, é longo, porque a tendência atual do cinema é construir narrativas mais ágeis, hiperativa em videoclipes, de cortes em “piscadas”, tendo a televisão como “reformadora” da “pressa” e não da “paciência”. É de se estranhar que maratonas de seriados, “roubando” as palavras de Rodrigo Fonseca, e inserindo que sagas como “O Senhor dos Anéis” levam muito mais horas que o filme em questão aqui, “Hele Sa Hiwagang Hapis – A Lullaby To The Sorrowful Mystery”, que tem quatrocentos e oitenta e dois minutos, que pode ser traduzido em oito horas e dois minutos, e integra a seleção da competição oficial do Festival de Berlim 2016 (uma decisão corajosa do diretor Dieter < >). Como já foi dito, sim, é longo, mas quem assiste não vê o tempo passar, ou melhor vê sim, um tempo pausado, palpável, com nitidez plena da obra-prima que se está assistindo, que reverbera inferências à cinematografia de outros cineastas como Bela Tarr (“um dos heróis”, disse Lav na coletiva de imprensa do Berlinale), Andrei Tarkovsky, Apichapong Weerasethakul, John Ford, Roberto Rosselini, Serguei Eisenstein., porém de um jeito único (mesclando estrutura dos filmes do diretor “Evolução de Uma Família Filipina” com “Norte” e com “Do Que Vem Antes”. Sem dúvidas é filme de cinéfilo para cinéfilo, encantando com a fotografia panorâmica de “high” contraste prateado de luzes e sombras. “Hele Sa Hiwagang Hapis – A Lullaby To The Sorrowful Mystery” é uma epopeia épica-histórica-realista-alegórica do passado da Filipinas, que foi “emancipada da Espanha”, e versa sobre a revolução de Andrés Bonifacio y de Castro contra a dominação no final do século dezenove, e examina o misticismo, a utopia, o idealismo, os tormentos e as decepções, os traidores, as as consequências no caráter dos indivíduos, a religião que manipula, a política que oprime, o social que sufoca, a alienação que explora o povo (com ama e dignidade em sofrimento e “que nunca perde as esperanças”) de uma “terra que está morrendo” em tempo turbulento. Aqui, a jornada encontra o passado abstrato de catarse epifania e de névoas que dificultam a visão. É um estudo antropológico-metafórico em tom fábula-parábola (mesclando o lado teatral com o neo-realismo) da existência de seus “sobreviventes” e “circenses” de rua. O longa-metragem é uma experiência de poesia visual estética, como a cena que se mata o músico, rouba-se o violão e queima a “felicidade”, cujo fogo é recorrente. O purgatório. O inferno. Lav Diaz é um diretor que não se preocupa em “podar” sua essência para ser “vendável”, tampouco em dar chances aos não atores que traduzem um amadorismo proposital em contraste com os atores profissionais que imprimem precisão absoluta das cenas, mesmo quando os socos e pontapés são apresentados como anti-naturalistas. Há uma encenação ensaiada. Os “sobreviventes” perdidos, que queimam de febre, retornam contrariamente a Caverna de Platão, encontram tipos em um mundo diferente, pagam violência com violência (na mesma moeda), humilham uns aos outros (“Violentar uma mulher, Coronel? É esta sua revolução?”), recorrem a prostitutas-travestis que “atendem” poderosos. “Revolução não é queimar o país e causar o caos”, “ensina”. “Cuba é seu melhor refúgio, homem de consequência?”, cria-se o embate político-perspicaz-inteligente entre o utópico-idealista-revolucionário-desinformado (este acreditando na incondicional na invencibilidade) e o realista-racional-diplomático com projeção arquitetada, dados estatísticos e entendendo as fragilidades de seu oponente). Aborda-se o genocídio dos índios, maldições, sombras como monstros internos, possessões, fraquezas, cobiças, “Virgens Marias escolhidas”, espíritos zombeteiros, o jazz negro, acordos de “honra”, sermões religiosos elitistas, monólogos em transe, “decadência hedonista”, a covardia não comum à cultura, entre delírios reais, “viagens-efeitos” do ópio de um “povo que enlouquece”. “Não sou supersticioso, tampouco medroso como os índios”, zomba-se. E então, mais um vez, Lav levanta a questão da índole. Repetindo “Norte”, um tenta o errado (e faz), o outro, a solidariedade gentil-prestativa de “fornecer a outra face”. “Hele Sa Hiwagang Hapis – A Lullaby To The Sorrowful Mystery” é inserido até a ilusão da invenção da Cinematografia pelos Irmãos Lumière e “arte que ensina a liberdade”. “O silêncio é negar a verdade”, diz-se. Neste filme, é uma sucessão de poesias, de sacadas espirituosas, de verdadeiros instantes de perfeição e “lindeza” máxima. Concluindo, um filme irretocável. Recomendado.

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