Por Fabricio Duque

“Tangerina”, dirigido por Sean Baker (de “Uma Estranha Amizade”) é um daqueles filmes que questionam para qual direção midiática o cinema está caminhando, ao inserir novas possibilidades de realização, como é caso de ter sido todo filmado com apenas três Iphones 5S. Busca-se aqui a estrutura dogmática da estética, inferindo ao movimento dinamarquês Dogma 95 de Lars von Trier e Thomas Vinterberg (este de “Festa de Família”), por dar preferência à forma que à trama em si. Outro elemento do filme é a imergir o espectador no mundo das transexuais em uma Los Angeles com atmosfera de submundo cotidiano, transformando a fantasia Disney de ser em realidade nua e crua da sobrevivência. Uma das personagens chama-se Sin-Dee Rella (Kitana Kiki Rodriguez), que sai recentemente da prisão, e que convive com outras “princesas” em uma cidade que é uma “mentira lindamente embrulhada”, que se apresenta “falsa”, talvez pela época de “Natal que não parece Natal por estar se neve”. É incrível como sutilmente “Tangerine” conversa com outro filme “Cavaleiro de Copas”, de Terrence Malick, por observar o universo metrópole como “cinematográfico e artificial”. Há quem possa achar que toda a construção fílmica é exagerada, “overreacted” e Kitsch demais. Mas não. O que de fato incomoda é a diferença existencial-social. Os transexuais, seres humanos de fabricação “híbrida”, nascem com um gênero sexual diferente de seus quereres e de suas naturalidades, precisam assim da adequação de defesas contra o preconceito, a crueldade, a intolerância, o descaso de donos de boate (que para realizarem um show precisam pagar para tal). E para sobreviverem necessitam recorrer a prostituição (e a recorrência em continuar sendo “machos”, pois os “clientes” preferem mais o órgão sexual masculino que a “transmutação” cirúrgica em uma “mulher de verdade”). Elas ainda precisam conviver com a hipocrisia das “amigas” (que “traem porque todos os homens traem”), com a competição ao dinheiro, com o perigo iminente, com as traições. Então, nada mais aceitável que estejam alerta todo o tempo, que alimentem o drama, rancor, a “honestidade”-verborragia a La South Park, a sensibilidade e a “merda que flutua na superfície”. Essas “princesas” tem o complexo Disneyland (Cinderela e ter sua carruagem transformada em abóbora), porque desejam ser amadas, respeitadas, aceitas como mulheres iguais a Beyoncé, mas o dia-a-dia é conviver com cafetões, homens casados em “crise de identidade sexual” (que “empurram com a barriga” um casamento aos olhos da família). É um filme que trabalha questões mais técnicas que narrativas. E consegue prender pela curiosidade em tom novelesco de mesclar o amadorismo com ficção estruturada ao documental. Foi exibido, em 2015, no Festival de Sundance, no Festival do Rio, de Londres e de Palm Springs. Recomendado.

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