Por Fabricio Duque

Acima de tudo, o filme “Ponte dos Espiões” é uma representação patriótica (de enaltecer a perspicácia-diplomacia-inteligência dos americanos contra a passional-intolerância-despreparo dos “líderes” alemães), uma das características marcantes de seu diretor, o estimado Steven Spielberg, que dispensa apresentações. Mesmo com aceitáveis-ingênuas “alfinetadas” críticas à opinião pública dos Estados Unidos, que vê o réu (um espião russo) culpado e sem ser passível de defesa (influenciada pela padronizada e unilateral “disfunção” do não-questionamento social – em aceitar decisões e vereditos legais sem contestações), mesmo com a humanização do “monstro” pelo advogado de defesa, interpretado pelo ator Tom Hanks, mesmo com o tom mitigado de sentimentalismo (salvo em determinadas cenas com a música de Thomas Newman – substituindo o fiel escudeiro John Williams por problemas de saúde, que “cresce” a intensidade e “rasga” a epifania do instante – outra característica de seu diretor) do roteiro dos Irmãos Coen (com “ajuda” de Matt Charman), ainda assim, “Ponte dos Espiões” é um longa-metragem maniqueísta, de mostrar que o “poderio” argumentativo da América “ganha” até os acordos mais complicados com outros países. Mas vamos ser sinceros, isto é o que menos importa, porque a maestria está em outra marca da cinematografia de Spielberg, que é envolver o espectador pela memória afetiva, criando sinestesia com as sensações de seus personagens. Nós podemos sentir a pressão, os jogos políticos, a crueldade alheia, o perigo iminente, o medo, a catarse da vitória, o frio, a espera da ação mais importante e definidora da história. Steven é um gênio em captar emoções reais (na maioria desprovidas de trilha sonora, deixando o momento seco, naturalista, de silêncio realista e ou de diálogos verborrágicos de negociações-conspirações). A narrativa intercala núcleos para interagir na exata necessidade dramática, uma das marcas de Ethan e Joel Coen, em uma fotografia de nostalgia histórica (quase uma novela à moda de “O Pianista”) e com ângulos de câmera (subjetivos e participativos), que fazem lembrar das primeiras cenas de “O Resgate do Soldado Ryan”, que por sinal, neste caso, pode servir como inferência temática, contudo aqui, dois prisioneiros estão na lista de exigência para serem trocados. Steven Spielberg é um cineasta de temas. Ele disse certa vez que filmar o horror é “libertar os fantasmas aprisionados de suas vivências”, deixando um pouco de lado os nazistas e abordando as engrenagens e maquinarias do período da Guerra Fria e da criação do Muro de Berlim, que por sinal, tem um trabalho impecável de reconstrução de época (suas barreiras geográficas, as culturas de cada lado e até o filme “Spartacus” que está sendo exibido em uma cinema do lado “americano”). Seu pai era engenheiro intercambista na Rússia durante a Guerra Fria, logo após Francis Gary Powers ser abatido, quando houve um tremendo medo e hostilidade entre as duas nações. Spielberg lembra de ter visto os cidadãos russos formarem fila para observarem Powers e dizer “vejam o que a América fez.” Quando perceberam os engenheiros americanos, apontaram para eles e disseram: “Olhem o que o seu país está fazendo conosco”, demonstrando o medo e a raiva que um país sentia do outro. Como disse, a grande qualidade de seu cinema é a narrativa clássica, de simplificar o enredo e desenvolver com emoção as ações-reações, aludindo a forma-filme de Clint Eastwood. A sinopse nos conta que em plena Guerra Fria, o advogado especializado em seguros James Donovan (Tom Hanks) aceita uma tarefa muito diferente do seu trabalho habitual: defender Rudolf Abel (Mark Rylance), um espião soviético capturado pelos americanos. Mesmo sem ter experiência nesta área legal, Donovan torna-se uma peça central das negociações entre os Estados Unidos e a União Soviética ao ser enviado a Berlim para negociar a troca de Abel por um prisioneiro americano, capturado pelos inimigos. Concluindo, “Ponte dos Espiões” é uma obra que diz muito, que analisa muito, que envereda camadas e sub-camadas, mesmo que co um discurso unilateral, pró-nacional e contra o comunismo (cujo tema é defendido em “Trumbo” e “ridicularizado” em “Hail Caezar”). Nada de errado com isso. O filme concorre aos prêmios do Oscar 2016, incluindo Melhor Filme e Melhor Ator Coadjuvante para Mark Rylance.

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