Por Fabricio Duque

É prazeroso ao espectador quando um cineasta mantém a autoralidade, investindo na repetição da própria característica marcante que o consagrou. Terrence Malick é um deles. Sua narrativa, de “O Cavaleiro de Copas”, seu mais recente filme, que integrou a competição do Festival de Berlim 2015, apresenta-se, por cartas de baralho de tarô, em edição videoclipe-existencialista desritmada, em caos (como a criação do Mundo), traduzindo “fragmentos” do protagonista, um indivíduo que se encontra em processo terapêutico, cujo trauma de um traumático acontecimento fez com que analisasse toda uma vida por “pedaços” de memórias não linear de “partículas de um mundo”, com estrutura musical a La Bolero de Ravel (que dá voltas e mais voltas e nunca encontra seu início). Seus pensamentos plasmáticos são narrados como se ele próprio estivesse fora de seu corpo, regurgitando em forma de epifania. É inevitável não referenciar o tema de “O Cavaleiro de Copas” ao “8 1/2”, de Federico Fellini e ou ao “A Grande Beleza”, de Paolo Sorrentino. Não é cópia, tampouco plágio, e sim, unicamente insights cinematográficos. Outro elemento de Malick é a metáfora. Utiliza-se a natureza como forma de reconstrução das emoções e sentimentos. Neste caso, a integração da cidade grande e das rochas que representam o início do mundo. Assim, o personagem necessita transcender. Viajar no tempo a milhares de anos para buscar o recomeço. “Trate este mundo como ele merece. Não há princípios, só circunstâncias. O mundo é um pântano, você precisa voar sobre ele”, narra-se em tom de carta “off” livre, de monólogos que servem para “lavar a roupa” e resolver pendências sentimentais. Em uma cena, o irmão do protagonista diz “querer sentir alguma coisa”, nem que seja um soco. Talvez por isso os seres humanos cometam tantos frequentes erros. Eles “querem algo mais, sem saber o que é realmente”. Outro detalhe é transformar o real das cidades e das ruas em um cenário fictício de um estúdio de Hollywood, em Los Angeles, cidade mais “cinematográfica e artificial” (que é apresentada como um guia visual de viagem – um passeio por exposições, museus, ruas, geografias, estátuas, pontos turísticos). São “flashes”; lembranças intercaladas e perdidas; análises conformistas, terminais e resignadas sobre o que viveram e sobre o futuro que os espera. São seres exógenos. Vivem em exílio. Estranhos em uma terra estranha. São “espiões”. Sempre precisando fingir e fugir. É um filme de auto-ajuda para encontrar o “caminho da escuridão à luz”. “Ninguém se importa mais com a realidade”, diz-se. Assim, nosso protagonista perpassa tentações, possibilidades, pseudo liberdades, perdões, vivências, mulheres, a espontaneidade, o amor livre e feliz, família e ou um “monge que só ensina este momento”. “Não se esqueça: você pode ser quem você quiser ser”, alguém relembra a ele: um ator. “Acorde. Sua mente é um teatro. Tente de tudo”. “Não perca tudo só porque perdeu uma parte” lembra um trecho de uma música do grupo Mumford and Sons, que diz “Nenhuma chama queima para sempre”. O protagonista recupera a redenção final, a libertação, a paz, a apagar as trangressões, reavaliando suas escolhas, a aceitar que “tem tanto amor dentro da gente que nunca sai” e a começar uma nova vida. E uma última coisa: por mais maestria que Terrence Malick imprima em seus filmes, são os atores que conduzem o equilíbrio interpretativo, com seus talentos natos. É o caso de Christian Bale, Natalie Portman, Cate Blanchett, entre outros, que se comportam na verdade como coadjuvantes, tendo a atmosfera da trama seu protagonismo máximo, principalmente por seus ruídos de ficção científica, que nos remetem a uma experiência cósmica-intergalática de poesia imagética. Concluindo, sim, é um filme de frases prontas e energia filosófica-popular. Mas também é uma imersão na futilidade e vazio de pessoas que vivem diárias ficcionais como realidade. Recomendado.

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