Por Fabricio Duque

Há filmes com tamanha complexidade temática-específica que geram no espectador uma sensação desconfortável de “burrice”, como se a “digestão” viesse indigesta e “confusa”. Sim. “A Grande Aposta” é um deles e desnorteia nove entre dez espectadores, sendo um do próprio universo político-econômico-imobiliário, caminho este seguido com seus termos, especulações, jogadas contra o mercado financeiro, acordos e a verborragia-acelerada característica-inerente, e que para absorvermos um quarto de tudo o que foi falado, precisaríamos de aulas prévias de economia empresarial. A narrativa ironiza a própria confusão-perdida ao inserir explicações por pessoas em banheiras com champanhe, chefes de cozinhas com metáforas de peixe e até mesmo Selena Gomez em uma partida de um jogo de azar. Tudo, logicamente, editado em curtos fragmentos da própria história e dos elementos pop-temporais que foram “consumidos” pela mídia e pelos indivíduos sociais que “andam como se estivessem em um vídeo da Enya”. “A Grande Aposta” utiliza-se de fatos verídicos do colapso imobiliário das ações de Wall Street por fraudes e investidas contra o “sonho americano” (“Isto é Wall Street, se nos derem dinheiro, aceitamos”) para criticar o estágio do mundo contemporâneo sem emprego, sem moradia, mas que continua com o fortalecimento do capitalismo. Os ricos mais ricos. E “desumanamente” alienados. E os pobres-vítimas mais economicamente disfuncionais. Um dos objetivos deste longa-metragem é criar a referência comparada com a máxima de que “Wall Street usa cada vez termos mais confusos para que reverberem a ideia-achismo de que só eles sabem e podem fazer o que fazem”. Assim, “os outros param de os chatear”. Sim, o ritmo narrativo não permite o descanso mental de quem assiste, exacerbando de forma exponencial a nossa apatia argumentativa e a “preguiça” da contestação, principalmente porque o filme “conversa” com o espectador, o colocando no lugar de passividade, interagindo com informações privilegiadas à moda de “House of Cards”, com suas músicas de rock-catártico, com suas verdades “hipócritas”, com suas “swaps”, com suas lógicas de mercado irreais e que se confrontam com a própria obviedade “indiscutível” acadêmica, que segue modelos padronizados manipulando interesses padronizados (“pseudo” libertários). “A Grande Aposta”, dirigido pelo americano Adam McKay (de “Tudo Por Um Furo”, “Quase Irmãos”), e baseado no livro homônimo de Michael Lewis, “aposta” em um time de peso de atores famosos. Cada um deles possui um núcleo-coral, e que se encontram no “denominador comum”. São quatro gestores que viram o que os bancos e o governo dos EUA decidiram não ver: o colapso da economia mundial. A partir daí tiveram uma grande ideia: fazer “A Grande Aposta” contra todo mundo. Essa visão ousada leva esses quatro personagens ao mais alto poder do centro financeiro, tudo, é claro, com seus “preços” e “redenções morais”. A sinopse nos conta que Michael Burry (Christian Bale), dono de uma empresa de médio porte, decide investir muito dinheiro do fundo que coordena ao apostar que o sistema imobiliário nos Estados Unidos irá quebrar em breve. Tal decisão gera complicações junto aos investidores, já que nunca antes alguém havia feito isso contra o sistema e levado vantagem. Ao saber destes investimentos, o corretor Jared Vennett (Ryan Gosling) percebe a oportunidade e passa a oferecê-la a seus clientes. Um deles é Mark Baum (Steve Carell), o dono de uma corretora que enfrenta problemas pessoais desde que seu irmão se suicidou. Paralelamente, dois iniciantes na Bolsa de Valores percebem que podem ganhar muito dinheiro ao apostar na crise imobiliária e, para tanto, pedem ajuda a um guru de Wall Street, Ben Rickert (Brad Pitt), que vive recluso. Um filme que no mais radical das definições pode sim ser adjetivo como inclassificável, porque quebra a própria estrutura cinematográfica. É curioso, aflitivo, excessivamente específico, profissionalmente, falando, e levanta uma questão altamente importante para nós seres humanos. Não entendemos nada de economia gerencial, e assim, o mercado pode fazer o que quiser conosco, nos transformando em oportunas “marionetes” ao bem prazer (e do “ganhar” dinheiro) deles. “A Grande Aposta” concorre aos prêmios do Oscar 2016, inclusive o de Melhor Filme. Recomendado.

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