Por Fabricio Duque

Mesmo com todos os gatilhos comuns característicos do gênero hollywoodiano dramático-romântico, “Brooklyn”, que concorre à estatueta do Oscar de Melhor Filme, manipula a emoção do espectador pela simplicidade delicada da sensibilidade, levando às lágrimas até o mais “bruto dos brutos”, principalmente pela mensagem da escolha do lar-moradia, tema semelhante que foi instigado em “Praia do Futuro”, cuja percepção atinge que “lar é lar”, independente do “recebido” da família, mas do que se constrói por instantânea afinidade. Aqui se reverbera existencialmente metáforas, em que a protagonista que inicialmente resignada, encontra na nacionalidade americana a possibilidade de sair de sua limitada comunidade irlandesa em que não visualizava um futuro (“recebido”) para experimentar um “futuro” incerto (“construído”). Sem “pestanejar”, abraçou o “medo” e aos poucos permitiu-se crescer pessoal e profissionalmente, experimentar a pureza e a impulsividade, e transformar a terra estrangeira em casa. A auto-estima de “exílio” tornou-se uma fincada moradia. Uma das cenas que mais exemplificam esta novela-parábola é quando o universo “brinca” com o acaso de sua personagem principal, a “obrigando” a retornar ao mundo natal (que agora é apenas uma passagem e apenas uma possibilidade de visitar parentes). Este lugar não a pertence mais, tampouco sua ingênua submissão de quando lá vivia, porque “tinha esquecido como as pessoas eram” (mesquinhas, pequenas, manipuladoras, cruéis, invejosas e excessivamente dominadoras). A trama nos conta que a jovem irlandesa Ellis Lacey (a atriz Saoirse Ronan, de “Desejo e Reparação” – sua primeira indicação ao Oscar, “O Grande Hotel Budapeste”, “A Hospedeira”) se muda ao Brooklyn para tentar realizar seus sonhos. No início de sua jornada nos Estados Unidos, ela sente falta de sua casa, mas aos poucos se adapta até que conhece e se apaixona por Tony (Emory Cohen, de “O Lugar Onde Tudo Termina”), um bombeiro italiano. Logo, ela se encontra dividida entre os dois países, entre o amor e o dever. Seu diretor, o irlandês John Crowley (de “Circuito Fechado”, “Dias Selvagens” e de dois episódios de “True Detective”), soube equilibrar drama e sensibilidade e criou na memória afetiva do público uma descarga catártica de questionamentos sobre quereres, covardias e decisões geográficas-culturais. Abrindo um parênteses, ter assistido ao longa-metragem em New York, cidade que construo por afinidade reverberada de outras vidas desencadeou outras percepções. Lá é a cidade de meu futuro. A pergunta retórica que faço é “E qual a sua?”. Assim, em “Brooklyn”, baseado no livro homônimo do escritor Nick Hornby (de “Alta Fidelidade”, “Educação”, “O Grande Garoto”) – que fornece leveza com humor, aceitamos todas as liberdades poéticas do roteiro e as incursões sentimentalistas não “melosas” para recebermos um contexto à moda de “Titanic”, de James Cameron, sem a tragédia histórica e sem a música tema definidora. Foi exibido no Festival de Sundance 2015. Altamente recomendado.

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