Por Fabricio Duque

 

É inevitável não sermos passionais, utópicos, pessoais, carnavalescos, hiperbólicos, nostálgicos, libertários, revolucionários, verborrágicos, exagerados e ingênuos quando vamos traçar linhas analíticas sobre “Ralé”, da nossa eterna “Sônia Silk” Helena Ignêz (de “Copacabana Mon Amour”), cujo novo filme representa seu próprio universo autoral de homenagem vivenciada de uma época que não acabou, e que se perpetua nas ideias corajosas, viçosas, urgentes, críticas, sobreviventes do mundo “congelado” de Belair e do Cinema Novo de Rogério Sganzerla, de Júlio Bressane e de Glauber Rocha (e “acordado” principalmente por Bruno Safadi). Então, voltando, “Ralé” é “estrogonificamente sensível”, apoderando-se do amadorismo a fim de alfinetar o tartamudear dos pensamentos limitados e preconceituosos de uma sociedade que se aliena pelo modismo do comportamento padronizado. É um filme “estroboscópico”, que resgata locutores de rádio e humor característico do passado. É naturista-vanguardista (quase circense) e de atmosfera metalinguagem (um filme dentro de um filme “O Exibicionista” que filma os anos setenta e que cria a cena icônica logo no início – quando fitas são colocadas na própria imagem, transgredindo assim o próprio visual do espectador). “Ralé” tenta libertar o “trágico e o destrutivo” por uma fotografia saturada ao desgaste, como um filme velho que “desiste” de se deteriorar. As utopias são tantas e tamanhas que beiram as caricaturas definidoras das percepções, como Jimi Hendrix, o Santo Daime (“Helena, sua contrabandista, traficante de Ayahuasca”), e ou a frase “Mais amor, por favor”. Mas é exatamente assim que tem que ser. De essência clichê respeitosa, de repetição ultrapassada e de aceite da idiossincrasia pensante do próximo (“de bicho grilo”). Experimenta-se o conceito todo tempo, o tempo todo, de forma leve, livre, fluída. A câmera que acompanha e a mensagem que praticamente resume o filme: “É preciso refazer o amor”. Aqui, tenta-se “descolonizar o imaginário” e dar mais valor ao conteúdo que a embalagem (como a cena do Ney Matogrosso cantando e beijando de língua um dançarino). “Ralé” é idealista de monólogos encenados, que “compartilhando, gera a abundância”. Seus personagens são eternos “errantes” e não buscam a redenção e sim o direito de continuar sendo o que sempre foram (e ainda o são), com seu “ócio criativo – característica da nossa alma indígena”. É acima de tudo, um filme social, que luta pelas minorias, que necessitam da exibição onipresente para que possam existir. Uma das atrizes de dentro do filme, interpretado pela eterna “Dora” (de “Magnífica 70), Simone Spoladore, finaliza pululando adjetivos definidores: “amador, teatral, conceitual, xamânico, gay, pacifista, solar, obscuro, feminista” e que subverte a linguagem, porque quando alguma coisa é limitada (e podada), este algo não cresce. Vive pequeno, não germina e morre rápido. Concluindo, viva as diferenças, as liberdades, os amores livres (e incompreendidos) e a “guerreira” Helena Ignêz, que nunca deixou de ser o que sempre foi e nunca deixou de acreditar! Integra a sessão Homenagem da vigésima edição da Mostra de Cinema de Tiradentes 2017.

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