Por Fabricio Duque

Uma das características do cineasta mexicano Alejandro González Iñárritu (de “Amores Brutos”, “Babel”, que cada vez torna-se o queridinho da América) é definitivamente a forma que escolhe a fim de contar suas histórias, “fugindo” da padronização narrativa hollywoodiana e “abrindo” a mente do espectador em experiências visuais, como por exemplo em “Birdman”, todo em um único plano-sequência. Em seu mais recente filme, “O Regresso”, uma ode epopeia-épica à sobrevivência com o maniqueísmo da vingança, o diretor reitera a estrutura de planos longos que acompanham a cena como um teatro que permite estender a ação criativa. Aqui, o longa-metragem de quase cento e sessenta minutos, apresenta-se como um faroeste ianque entre mocinhos (os brancos americanos e até alguns franceses) e bandidos (os índios “vermelhos” com flechas, sem alma e zero misericórdia) em uma geografia atemporal (mesmo sendo ambientado no oeste americano em 1822), longínqua e sem lei, traduzindo uma cenográfica poesia contemplativa-naturalista, de câmera cósmica-transcendental-existencialista à moda de Terrence Malick, de temática-epifania à moda de “Apocalipse Now”, de Francis Ford Coppola, e de interatividade ultra intimista-realista para com o espectador, que se vê participando plenamente em quarta dimensão, devido ao grau máximo de sinestesia visceral (e pela água e ou pelo sangue e ou pela névoa que atinge a própria lente de gravação do que se projeta – lembrando em muito as primeiras cenas de “O Resgate do Soldado Ryan”, de Steven Spielberg). Não se pode negar que “O Regresso” é uma experiência de tirar o fôlego, tanto pela violência que “resgata” o lado selvagem de cada um de nós, quanto pela precisão ritmado de seus ângulos, que permeiam o caminho de seu protagonista “Highlander-MacGyver” Glass (interpretado por Leonardo diCaprio, que, indiscutivelmente, se entrega sem ressalvas e limites – que inclusive “abocanhou” o prêmio de Melhor Ator no Globo de Ouro 2016 e é o favorito ao Oscar – e que disse que foi o filme mais difícil de toda sua carreira). Sim, as cenas são hipnóticas (incrivelmente simétricas – quase quadros National Geographic); críveis; “animalescas”; e sem suavização estética. Sim, só por isso já vale cada centavo do ingresso pago e cada segundo sentado na cadeira do cinema. Sim. Mas também há não. A contra-partida é a mensagem filosófica pró-América, e a sucessão de momentos clichês-sentimentais que são pululados ao longo da trama, descambando-se na revanche final, com música de efeito que manipula o que já está explícito. Assim, podemos trocar em miúdos que talvez a irregularidade de nossa aceitação contextual venha do próprio roteiro simplista, palatável, vulnerável e com potentes fragilidades. Contudo, vamos parar por aqui. É um filme de diretor (que também levou o prêmio no Globo de Ouro 2016) e de ator, baseado em parte no livro “The Revenant: A Novel Of Revenge”, escrito por Michael Punke, uma história de fatos reais. E, por favor, caros leitores-cinéfilos deixem de lado o ator vilão Tom Hardy que continua sua interpretação Tom Hardy de ser (sem muitas nuances surpreendidas). “O Regresso” mereceu até mesmo o prêmio de Melhor Filme no Globo de Ouro 2016. Sim, é excelente. Aprisiona o espectador sem pena e assim cria uma obra que eleva a qualidade cinematográfica. Há um “porém” atrás do outro? Sim, mas tanto faz. Experimente a possibilidade da humana selvageria inerente. “Eu consigo nomear 30 ou 40 sequências que foram algumas das coisas mais difícieis que tive de fazer, seja entrando e saindo de rios congelados, dormindo em carcaças de animais ou comendo o que tive que comer no ‘set’ de filmagens. Eu estava lindando com um frio congelante e a hipotermia era um risco constante”, finaliza o ator Leonardo diCaprio.

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