Por Fabricio Duque

Uma das essências da arte cinematográfica é a possibilidade de experimentação criativa-ilimitada sem a preocupação de seguir padrões pré-definidos de sucesso. É um deleite ao espectador quando isso acontece. Quando há “quebra” de paradigmas e “luta” pelas ideias autorais. O diretor mexicano Alejandro González Iñárritu é um deles e soube exatamente como inserir sua competência “underground” no mundo restrito de Hollywood, visto que logo em seu primeiro longa-metragem, “Amores Brutos” já foi indicado ao Oscar e se tornou o “queridinho” que mais elevou o gênero independente como vendável. Em “Birdman (ou a Inesperada Virtude da Ignorância)”, traz o realismo fantástico em um filme alternativo, todo em um único plano-sequência (há quem diga que truques existem para cortar as cenas, como por exemplo, a passagem por um ambiente totalmente escuro, os bastidores do teatro St. James na Broadway, em New York), e dirige o ator Michael Keaton no papel de um ator, famoso por ter interpretado um super-herói no cinema do passado, tentando restaurar a fama montando uma peça. A metáfora existencial está lançada. É a redenção e retorno ao sucesso. O roteiro “disseca” o politicamente incorreto, buscando a verdade realista do comportamento durante a fase da criação profissional. É depreciativo, sem “papas na língua” e “cheira a testículos”. Aqui, é um ator desestruturando-se ao desconstruir o próprio método (e o “ser” que “acha” que acredita), e assim regurgita o excesso prejudicial (e toda sua arrogância-prepotência), conservando apenas humildes maestrias. A câmera acompanha, de forma intimista, passeando, rodando e interagindo com quem assiste. É quase um voyeurismo não participativo em quarta dimensão. “Birdman” critica as “franquias do cinema”, a “futilidade blasé” e diz que “um objeto é apenas um objeto, não o que dizem sobre ele”. O longa-metragem é filosófico, verborrágico, de esquisitice proposital, de frases “embaraçadas” sobre o universo “louco”, “autêntico”, “narcisista” (e idiossincrático) dos atores. Podemos inferir que o que vemos é a imaginação subjetiva do criador, que cria elipses, surtos surreais, viagens mágicas, que usa “roupa de lycra”, e que referencia Robert Altman. A libertação esquizofrênica (de personificação dos medos e das fobias sociais) explicita-se quando o protagonista “ganha” à rua com estética embaraçada (de cueca) à moda Wes Anderson. É quase um Dogma-epifania. (a alteração da mente de um ator com “frio na barriga” elevado ao nível máximo de ansiedade). “Auto-estima? Oh, Você é uma atriz, querida!”, alfineta-se, sucessivamente os clichês deste “clube” (“Vai chamar Ryan Gosling ou outra merda”). É ambicioso. Viciante. Hipnótico. Engraçado. É sobre um ator que acredita ter “poderes reais” e que “o único lugar verdadeiro é no palco”. O filme define em palavras as neuroses destes profissionais. Realidade? Fantasia? Metalinguagem Malick? Concluindo, um filme que personifica estágios e cria instantes magníficos. A sinopse nos conta que no passado, Riggan Thomson (Michael Keaton) fez muito sucesso interpretando o Birdman, um super-herói que se tornou um ícone cultural. Entretanto, desde que se recusou a estrelar o quarto filme com o personagem, sua carreira começou a decair. Em busca da fama perdida e também do reconhecimento como ator, ele decide dirigir, roteirizar e estrelar a adaptação de um texto consagrado para a Broadway. Entretanto, em meio aos ensaios com o elenco formado por Mike Shiner (Edward Norton), Lesley (Naomi Watts) e Laura (Andrea Riseborough), Riggan precisa lidar com seu agente Brandon (Zach Galifianakis) e ainda uma estranha voz que insiste em permanecer em sua mente. Filme de abertura do Festival de Veneza 2014. Foi filmado em menos de um mês e o processo de edição durou apenas duas semanas. A trilha sonora de Antonio Sanchez, realizada quase que inteiramente por bateria, foi desclassificado pelo banca musical do Oscar. Na cerimônia do Oscar 2015, ele foi indicado em nove categorias e venceu quatro: Melhor Filme, Melhor Diretor, Melhor Roteiro Original e Melhor Fotografia. Além disso, também foi premiado com o Prêmio Screen Actors Guild de Melhor Elenco em Cinema e o Globo de Ouro de Melhor Ator – Filme Comédia ou Musical e Melhor Roteiro. Recomendado.

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