Por Fabricio Duque 

“45 Anos”, sem sombras de dúvidas, invoca o universo do cineasta Ingmar Bergman, visto que aborda o cotidiano de um casal, quarenta e cinco anos juntos, partindo da quase superficialidade para aprofundar “fantasmas” do passado (que talvez “desande” toda uma vida). A narrativa, contada em sete dias, por elipses temporais de micro-ações cotidianas de “obrigações” diárias, e de suavidade “idílica”, caminha pelas nuances sentimentais (de “alimentação” destrutiva) presentes em todo e qualquer ser humano, mesmo após tanto tempo de casamento. E por modificar estações climáticas, indicando a metáfora temporal. Aqui, a consolidação da trama acontece pelos detalhes. Sutis, diretos, educados, verdadeiros. Os paralelos constroem o quebra-cabeça. O sótão (na parte de cima da casa) que “preserva” a “traição” do passado; as fotos antigas que “brigam” com “novas” idiossincrasias; o não “terem” tido filhos; a aventura versus a apatia. É impossível o espectador sair imune, pois o filme brilha toda sua maestria na simplicidade das pequenas-ações, principalmente das camadas interpretativas-visuais de Charllote Hampling (de “Coração Satânico” e “Melancolia”), que de tão entregue, torna nossa experiência como uma sinestesia-necropsia do próprio olhar. A atriz inglesa está impecável, contida, permeando transmutações de admiração incondicional de seu cônjuge à vulnerabilidade descontrolada de um ciúme obsessivo. No processo, ela tenta gerenciar as crises inevitáveis com seu marido Tom Courtenay (que já trabalharam juntos em “Trem Noturno para Lisboa”), intervindo com maduras discussões de relacionamento, e por total comodismo-compreensível, opta por “zerar” um recomeço quase “não humano”, fingindo assim “varrer” as consequências para “debaixo do tapete”. A câmera, assim como a direção Andrew Haigh (do longa-metragem “Weekend” e do seriado HBO “Looking”), complementa a ambientação ritmada, sensível, precisa, de equilíbrio cadenciado, buscando a conservação da paz (inclusive a social) a qualquer custo. Uma das principais mensagens do longa-metragem é a mensuração, dosando lados e adaptando vontades e quereres a uma compatibilidade ponderada, consensual, cúmplice e solidária, lembrando de longe e bem mais maduro o filme “Ruth & Alex”, ou até mesmo “Amor”, este de Michael Haneke. Mas é no final que “45 Anos” exacerba seu revelador “solstício”, utilizando-se de uma sutil atmosfera à moda Lars von Trier. É como se, trocando em miúdos, a personagem principal “recebesse” em um insight toda sua existência matrimonial. Torçamos então que o Oscar seja mais sério que dos anos anteriores e não se esqueça dessa arrebatadora interpretação de Charlote.

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