Por Fabricio Duque

“Sacro Gra” apresenta-se como uma encenação naturalista do gênero documentário, retratando ambientes e famílias em janelas de um prédio por câmera escondida e “bisbilhoteira”, a fim de captar a realidade máxima das micro-ações. A narrativa, sem música, seca, cru e direta insere o espectador em um tempo contemplativo à moda de um reality show. São instantes poético-visuais que vez ou outra ouve as histórias desesperadas dessas personagens à margem da sociedade, principalmente as que moram em furgão. Assim, há hibridismo narrativo com a ficção, visto que todo e qualquer documentário quando se diz gravando, consequentemente, a naturalidade do entrevistado é adulterada à interpretação individualizada. “Sacro Gra” aprisiona os dois lados. Tanto seus “atores”, quanto o espectador, desenvolvendo-se pelos eventos, festas, afins e pelas percepções “queijo como sapato único” e pela “barriga do policial que chega antes dele”. Há um que de Eduardo Coutinho e seu jogo de cena de “Edifício Master”. Aqui, busca-se pessoas-tipos, quase caricaturas exóticas da realidade, que existem, mas que são exacerbadas em seu existir (os travestis, o botânico, o pescador de enguias, os ricos “bregas”). É um filme insensível, que busca a emoção no conteúdo, como dissecar o sentimento de um filho cuidando da mãe doente. A sinopse nos conta que, dirigindo um pequeno minifurgão, o cineasta Gianfranco Rosi (no filme e neste longa-metragem em questão – elemento que aumenta a comprovação da metalinguagem – já realizou “Below Sea Level”, “O Justiceiro no Quarto 164”) parte em uma viagem para descobrir os limites da auto-estrada Grande Cordão Circular, que circunda Roma (um grande anel). Durante o percurso, ele descobre um novo mundo. Concluindo, um filme que investe todo esforço em não querer a representação formal e sim salientar, livremente, momentos que comprovem uma social e humana verossimilhança com o cotidiano. Deste este mundo invisível, escondido atrás de uma quase infinita parede antirruído, emergem personagens como um nobre “piemontês” ou um botânico que luta para salvar suas palmeiras. Uma coleção de histórias sobre os bastidores de um universo em expansão. Foi o primeiro documentário da história a vencer o Leão de Ouro do Festival de Veneza 2013. Recomendado.

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