Por Fabricio Duque

 

Quando o diretor Ruy Guerra apresenta uma nova obra, nós espectadores já sabemos o que encontrar: uma experiência que se “abriga” na essência “raiz” do cinema ao conjugar contexto metafórico à forma de estética clássica. Em “Quase Memória”, filme em questão aqui, baseado no romance homônimo de Carlos Heitor Cony, e que concorre ao Troféu Redentor de Melhor Longa-Metragem de Ficção do Festival do Rio 2015, corrobora-se a sobriedade da transposição à tela de um teatro filmado à moda Samuel Beckett por luzes e sombras e pela linha seguida que “encontra” o surrealismo-realismo de Franz Kafka. É um maduro e seguro “Mise-en-scène” de atmosfera de ficção científica, intercalando personagens, trilha sonora opereta, cenas e detalhes narrativos a fim de construir a fundição pelo “confronto” temporal (1968 e 1994; AI-5 e a morte de Airton Senna). O jogo de cena representa a encenação de simplicidade conceitual, em que o tema e seus personagens são os mais importantes. Os dois períodos diferentes coincidem como uma “dobra” de memórias deturpadas. A trama desenvolve a metáfora pela concretude. A “loucura” e ou “projeção mental” complementam-se a explicação de que o “tempo é uma ilusão”. E que um “vê” a lembrança recordada do outro (em fragmentos de memórias – que são “reconstituídas”), cujo esquecimento (“sem memória tudo fica mais leve”) pode ser explicado pelo “choque” da ditadura e ou pela alienação da sobrevivência e ou pela “fuga” consequente de um passado traumático (e ou um futuro desesperançoso sem perspectiva). “Quase Memória” desenvolve-se por camadas psicológicas da juventude versus velhice (o meio e o fim), tendo novos personagens “entrando na história quando lembram deles” (que teatralizam idiossincráticas picardias excêntrica-circenses por humor de inocente ingenuidade-verdade sarcástica). “Podemos ser a memória de quem lembramos”, exalta-se com o “contador perverso” (Deus?). É definitivamente um filme de atores, que interagem à narrativa lúdico-realista-fantástico, propositalmente anti-naturalista (como uma crítica), criando comportamentos aludidos aos universos de Fellini e Wes Anderson, com pitadas indicativas do mundo performático de “Amelie Poulain” e de Ariano Suassuna. “A ficção é apenas uma realidade que não aconteceu”, diz-se. A história permite que seus protagonistas olhem e analisem suas memórias em uma tela (incluindo alterar diretamente ângulos visuais) como uma terapia cognitiva e um prólogo fatalista do balanço dessas vidas (“avessos assustam”). “Um filme do Woody Allen que sempre quis ser um Fellini”, faz-se graça. “Quase Memória” é uma “viagem” que mistura realidade e fantasia, que conta com um elenco afiado e “autoral”, logicamente com destaque aos protagonistas Tony Ramos (o “velho”) e Charles Fricks (o “novo”), que “subvertem” a estrutura interpretativa, quase gerando um novo gênero tipificado, visto a entrega sem ressalvas e limites de “mergulho” em seus papéis. Sem esquecer também de João Miguel (brilhante) e Antonio Pedro. A sinopse nos ambienta no universo psicológico de Carlos, um homem condenado a desassossegos da memória e que a “epifania” permite que se encontre com ele mesmo em uma dobra de tempo. Carlos jovem está diante do esquecimento de Carlos velho, que já não se lembra sequer do próprio rosto. Recebem um pacote. Mas o pacote parece estranho. O nó que o amarra, o cheiro, a letra no envelope: a encomenda só poderia ter sido enviada por seu pai, Ernesto, morto há anos. Um pai que sempre criou situações inusitadas. Nessa dobra do tempo, há um Carlos que lembra e há um Carlos que esquece, as suas divertidas memórias ao lado desse pai genialmente louco. Concluindo, um filme que “respira” cinema e que “aprisiona” quem assiste em um mundo próprio da construção da própria arte. Recomendado.

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