Por Fabricio Duque

“Futuro Junho” representa o mais recente de Maria Augusta Ramos (de “Justiça”, “Juízo”, “Morro dos Prazeres”), que já tem como característica marcante em sua carreira não realizar documentários de forma convencional, imprimindo um hibridismo entre realidade e ficção. É tudo verdade, logicamente que sim, mas não uma indução manipulada (de entrevistas-depoimentos e afins), sendo mais uma análise sutil (contemplativa em um “Big Brother” do cotidiano) que estimula a percepção argumentativa e individual de cada um. Quando se opta por “confundir” gêneros, o roteiro fornece a naturalidade espontânea de um documento real com estrutura ficcional, corroborado pela câmera intimista, detalhista, subjetiva, “clínica” e “rigorosa”. Aqui, o longa-metragem é acima de tudo um estudo antropológico político, econômico e social sobre a contemporaneidade do Brasil, sua “democracia” e suas regras legislativas, suas explicações didáticas de causas, efeitos e soluções possíveis da economia (quase em “grego” aos leigos de plantão) que atingem seus indivíduos participantes de uma coletividade “cordial” e sistemática. A narrativa mostra-se por personagens de setores sociais diferentes. O “motoboy” (Alex Cientista, que “melhor representa a cidade de São Paulo”, principalmente por seu Rap típico e por “encontrar” brechas metafóricas de sobrevivência e expectativa incondicionalmente esperançosa de futuro com sua moto); um representante do mercado financeiro (André Perfeito, que se intitula o “vilão”); o montador de carros à moda “Tempos Modernos”, de Charles Chaplin; e um sindicalista. São quatro trabalhadores seguidos por semanas antes da Copa do Mundo em 2014 (e quando o dólar estava a 2,20 reais quase em colapso). Logicamente, que hoje com a moeda americano acima dos quatro reais, o filme ajuda a questionar nossa “ruptura economês”. É um documentário sinestésico, visto que nós espectadores (e brasileiros) sentimos na pele as mesmas utopias, desilusões e desesperanças iminentes e atuais de nossa “moradia in loco”. Já foi mencionado aqui, mas é sempre interessante reiterar a narrativa documental brilhante que mais lembra um longa-metragem ficcional com moldes de Walter Salles e Karim Ainouz. Com mais cem horas de material, “Futuro Junho”, que foca na pluralidade de vivências urbanas, nos paradoxos e contradições típicos da sociedade brasileira, aconteceu realmente na “montagem” precisa e altamente qualificável de Karen Akerman. “Futuro Junho” é um retrato que todo integrante de uma sociedade, obrigatoriamente, deveria assistir, e que transpassa pelos nossos problemas da Saúde, do transporte e da diversão “pão e circo”. Assim, critica-se (a “hipocrisia” de se tentar fazer greve; da vida que “precisa” seguir resignadamente seu rumo; o contraste entre um serviço metroviário deficiente versus a “superpopulação” de carros) apenas com o próprio olhar de observação interna, segura e corajosa. Está na competição do Festival do Rio 2015 e que durante o Cine Debate, no Odeon, contou com a presença de alunos do audiovisual de uma escola de Petrópolis. Recomendado. O grande documentário até agora deste festival. Nossa aposta à premiação.

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