Por Fabricio Duque

“Contando” é o novo documentário do afegão Jem Cohen (de “Instrument”, “Long For The City”, “Horas de Museu”). São ensaios não lineares e não cronometrados em quinze capítulos, que tentam captar a essência cotidiana das cidades de Moscou, Nova York, Istambul, Londres e Porto. E assim permite ao espectador “viajar” sem sair da cadeira de cinema por uma câmera quase amadora de estrutura turística, mas sem imprimir o estilo de ângulos poéticos-concretistas não convencionais em janelas refletidas, e adentrar na espontaneidade dos lugares documentados. Apresenta-se como um Big Brother naturalista da vida moderna contemporânea, expondo particularidades idiossincráticas das pessoas e dos detalhes geográficos que as cercam. Aqui, cada cidade possui seu tempo em determinada época climática, fator este que influencia na velocidade da edição narrativa, ora por planos contemplativos, ora por fragmentados cortes videoclipes. Busca-se prolongar o olhar da observação, como um turista fascinado e hipnotizado pela novidade do lugar que se encontra. Espiona-se ações e reações banais de estranhos por uma câmera “fofoqueira”, invasiva, escondida e clandestina, criando paralelos entre seres locais e pela “invasão” dos visitantes. É um álbum visual-animado de viagem. Seu material é o próprio meio realista, não encenado e ou mascarado, funcionando como um imã atraindo as efêmeras luzes que piscam nas janelas. O objetivo é desmistificar, sem esquecer porém sua “obsessão” por gatos, a religião, o céu por aviões, e por minúcias incomuns e curiosas que praticamente ninguém atenta quando passa por algum lugar, como por exemplos, frases “Trump é um monstro” e “Desarme o Pentágono”, e ou alguém de casaco em um dia de calor e ou a “alienação” por celulares. Há inverno em Coney Island (uma área de verão), há julgamento de alguma coisa em narração em “off”, há o interior de uma casa e a comida típica. Há trens, neve, sons, músicas, ritmos, até mesmo uma árvore que parece com a mesma filmada em “O Anti-Cristo”, de Lars von Trier. Jem Cohen olha para o que ninguém mais repara, como telefones públicos e pedintes de rua. “Contando” é um filme extremamente interessante, totalmente autoral, de conceito experimental e que definitivamente “embarca” o espectador na jornada a La Jonas Mekas. Concluindo, um longa-metragem para se assistir sem sono, em tela grande e com a “mente aberta” à imaginação de nossos próprios quereres. Finalizando, não é um filme que busca a facilidade palatável, tampouco a praticidade do comum. Uma caminhada de domingo através do tempo e do espaço. Produzido por Patti Smith. Festival de Berlim 2015. Recomendado.

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