Por Fabricio Duque

“Beatriz” é muito mais do que uma simples definição de até que ponto se pode amar. É a “necropsia” das possibilidades infinitas de prolongar o desenvolvimento deste amor, que “era urgente”, que de tão “estranho”, “direto”, “incomum”, de “tesão aflorado” seduziu a protagonista Beatriz (vivenciada de forma “entregue”, visceral, sóbria, mitigando clichês e reações dramáticas pela atriz Marjorie Estiano. O “responsável” pela co-dependência de obsessão incondicional é Marcelo (o excelente ator Sérgio Guizé) um escritor que começa a escrever um segundo romance sobre o ciúme. O casal acaba de se mudar para Lisboa e sua atmosfera de nostalgia poética “assalta” desejos e assim Madri torna-se o palco da discórdia, gerando uma mulher livre e um marido atormentado. Eles, “cúmplices” usam suas próprias vidas como material bruto do livro, tornando-se prisioneiros, entre “encarnar” personagens destrutivos, imorais, em surtos psicóticos de catarses sensoriais e a procura de sexo ao acaso. O roteiro, genial, do próprio diretor com Zé Pedro dos Santos, José Carvalho e Ricardo Bravo, busca o jogo do limite tênue da naturalidade e do anti-naturalismo poético, este a fim de suavizar a carga emocional latente a moda de um Fernando Pessoa mais realista. “Todo começo é involuntário”, diz-se. O filme tem como ponto principal seu texto. Os diálogos afiadíssimos e pululados de adjetivos (que constroem sentenças de efeito não clichê e sem gatilhos comuns melodramáticos) conectam a própria trama, quando um detalhe “maduro” em um ponto é a chave para outro mais a frente, como a “literatura que salva” e o “livro que quase o matou”. Assim, “embarcam” nos abismos, fantasias, libertações, sofrimentos, como se “pulassem” de um despenhadeiro sem saber se haveria rede ou não. “O que é sanidade?”, confronta o senso comum, desabilita sinais, reescreve consequências e enaltecendo “a realidade que assalta” o sonho do início. tudo com uma direção “segura de si”, completamente despretensiosa, livre, fluida, perspicaz e altamente sexy sem ser vulgar. Concluindo, um filme de retroalimentação da paixão, de um servilismo incondicional ao objeto da obsessão. Recomendado.

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