Nota da Redação. A Premiação do PRÊMIOS PLATINO DEL CINE IBEROAMERICANO aconteceu no dia 24/07, no Uruguai. O grande vencedor foi “O ABRAÇO DA SERPENTE”, que ganhou Melhor Filme de Ficção, Melhor Direção, Melhor Música Original, Melhor Montagem, Melhor Direção de Arte, Melhor Fotografia e Melhor Direção de Som. E nosso brasileiro “QUE HORAS ELA VOLTA?”, de Anna Muylaert, que está em cartaz com “Mãe Só Há Uma”, venceu na categoria de Cine y Educación en Valores. 



Por Fabricio Duque

 

Uma das características marcantes da cineasta Anna Muylaert (de “Durval Discos”, “É Proibido Fumar”, “Chamada A Cobrar”) é hiperdimensionar a naturalidade cotidiana quase a um documentário da vida privada moderna. Em “Que Horas Ela Volta?”, seu mais recente filme, que “galgou” primeiro o sucesso da carreira internacional, aborda-se a eterna luta de classes entre empregados e patrões, com seus “falsos” relacionamentos sociais (uma “auto” condescendência de hipocrisia comportamental e ou um estágio “blasé” versus uma “intimidade afetiva”). A narrativa “ultra” realista deve-se muito às interpretações de todo o elenco, que se entregam sem limites e pudores a fim de retratar, exata e fielmente, a atmosfera do ambiente “inóspito” abordado. Não há como o espectador sair imune da resignação subalterna nivelada por baixo da “empregada (ou “doméstica” – pela “nova” nomenclatura de tratamento – que quem faz é a soberba atriz Regina Casé de “Eu, Tu, Eles” – incluindo seu sotaque “pernambucano-paulistano” – que, com mérito inquestionável, venceu na categoria de Melhor Atriz no Festival de Sundance 2015) e da autoridade “senhora de engenho de ser” – “redesenhada” à expressão politicamente correta “patroa” – da matriarca (a sempre excelente Karine Teles, de “Riscado”). O confronto acontece quando a filha (um “rato”, uma afronta e um perigo), totalmente “segura de si” e com gigantesco “ímpeto arrogante” (deslumbrada, invasiva, “abusada”, “sem noção”, oferecida e “estranha”) da “escrava” resolve viver com a mãe na cidade grande (com o objetivo de fazer vestibular para Arquitetura na FAU – uma “das faculdades mais difíceis”), não “querendo” se comportar como uma “serviçal” (e assim a “inteligência” ganha mais “reconhecimento” – está de “igual para igual”, como o gostar pelo suco de lima da Pérsia). A maestria de “Que Horas Ela Volta?” é seu desenvolvimento, com suas ações, choques culturais e sua “aristocracia” defasada, superficial e insegura (“Estilo é se conhecer”). É inevitável não referenciar aos filmes: “Casa Grande”, de Fellipe Barbosa; “Doméstica”, de Gabriel Mascavo; e “Domésticas”, de Fernando Meirelles. Mas diferente destes ou no curta-metragem “Cloro”, de Marcelo Grabowsky, aqui é aprofunda da uma latente espontaneidade e uma liberdade cerceada. Podemos perceber, que praticamente, não se “extrai” atores e ou encenações teatrais, e sim um documento incisivo de antropologia social de nossa própria realidade de cada dia, “reverberando” um “livre” Big Brother de edição que capta a essência das particularidades que necessitam de retroalimentação. Não há uma “produção” sistemática e ou pragmática, mas uma sensibilidade tenaz quase à moda dos filmes do cineasta chinês Jia Zhang-Ke. O roteiro de “Que Horas Ela Volta?” questiona “criações e cuidadores”, como a empregada que se comporta “mais mãe que a mãe” (“entendendo” e “encobrindo” a maconha do “filho” e o sorvete favorito), quase uma “substituta” da mãe “ausente” (individualizada em seu próprio mundo) – e que recebe um carinho “puro”, e que diz “sem papas na língua”: “é gente ruim que coloca a forminha vazia de gelo na geladeira” e “Tem que dar Mucilon para não ‘cagar’”. Por estar tempo “demais” ali naquela família, a “nova escrava” social usa uma liberdade sincera para dizer o que pensa, logicamente com respeito, que se “acha” realmente uma parte integrante (consumindo o “resto” do mínimo da felicidade), e que “abusa” de pequenos prazeres, como o sol na área do varal de roupas. Outra maestria do filme é sua câmera acompanhada e “bisbilhoteira”, que “fofoca” inclusive a “diversão” do final de semana (o forró), mas que “impede” o espectador de participar da “vida rica do Morumbi”, apenas pelo viés dos “serviçais” (que não escondem as marcas dos produtos, como Limpol e Casas Bahia, por exemplo). Traduz-se por uma narrativa do olhar. A atenção está nos detalhes, como na camisa do show de Kings of Leon, Arcade Fire, Morcheeba e Elvis Costelo, denotando cultura “out of popular”. “Quando eles oferecem é por educação, porque eles têm certeza que vamos dizer não”, “ensina” a filha. Talvez a cena mais explícita seja a do “descasado”, das “xícaras” – “preto no branco, branco no preto”. Concluindo, “Que Horas Ela Volta?” não possui “barrigas”, tampouco falhas. É cirúrgico, porque realiza com excelência a “necropsia” da “alta” sociedade brasileira. Observação final. Como dá “pena” da empregada e como dá “medo” a patroa. É por essas e tantas outras que o longa-metragem é hiperbolicamente recomendado. Nota máxima. Obra-prima. Finalizando, a diretora Anna Muylaert arremata de vez: “O roteiro parte de uma situação ficcional para mostrar vários aspectos sociológicos e antropológicos de um momento recente da história do país, mas não só isso. Tínhamos dúvidas se os estrangeiros entenderiam essa situação, que é bem brasileira, mas entenderam, sim. Pessoas de várias nacionalidades se identificaram com o filme em Sundance, negras ou latinas. De alguma forma, sabem como se sentem cidadãos de segunda classe. A plateia americana riu e se emocionou bastante, não colocou o social como ponto principal. Os europeus, sim, é que se interessaram mais por essas questões. Tanto é que distribuidores da França e da Itália já estão conversando com nosso agente de vendas”.

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