Por Fabricio Duque

“Cativas – Presas Pelo Coração” pode ser definida como uma novela da vida real, e aborda mulheres que se apaixonaram “loucamente” e incondicionalmente por presidiários (do Paraná), mas “não pelos bandidos”. A diretora estreante em um longa-metragem, Joana Nin, busca humanizar vidas (e o próprio processo dos “encontros amorosos”), sem julgamentos e ou “lados” opinativos pré-conceituados por detalhes que traduzem a “motivação” de cada uma das sete “escolhidas”. O documentário “deixa” o próprio espectador concluir suas percepções, como por exemplo, uma espontaneidade encenada (com a presença da câmera intimista e observadora) de suas “protagonistas” e ou a emoção “estimulada” do “presente” momentâneo (o recebimento da carta do “marido” a cada semana) e ou simplesmente o querer simplificado (agradadas como “sabonete nas cartas para ficar cheirosa”), mitigado de complexidades e pululado de resignações aceitáveis. Elas comportam-se como crianças com a “utopia” platônica da construção sonhadora do “querer objetivado”. As “presas”, pelo lado de fora da cadeia, submetem-se à humilhação máxima dos procedimentos técnicos do sistema penitenciário para que possam “passar” horas em visitas íntimas semanais, unicamente para “matar saudades”. Elas vivem em casas desprovidas de confortos, apenas com o básico, e se “desdobram” e muitos a fim de “fornecer” a melhor da vida a seus amados, visto que “largaram tudo para ficar com eles”. Talvez, possamos conceituá-las como “anjos ajudadores” enviados a Terra, porque acreditam sem pestanejar que receberam um “presente” de Deus. “Não tem explicação. Tenho que viver e pronto”, “derrete-se” e complementam “essa paixão gostosa”. É inevitável não questionarmos as razões. Será o proibido? O poder? Uma forma deles se “apresentarem” como deuses? Ou o fato de estarem trancafiados desencadeie uma sensação tranquila de confiança de não traição? O roteiro “prende” o espectador nas curiosas, sentimentais e hiperbólicas histórias contadas, que “tendem” a “buscar” complicações quase como uma “fuga” da rotina (“Dormindo com o Inimigo? Adoooro”, brinca-se). Inegavelmente são dependentes de um amor “princesa” e altamente simbólico à moda Disney de ser (como roupas e maquiagens exageradas, coloridas, Kitsch, extravagantes e exóticas; e gostos “duvidosos” – para os “intelectuais de plantão” – como poesias e músicas de gênero brega – resumidas na música tema de Marcio Greyck) e, talvez para suprir uma solidão latente e constantemente vazia. Ou talvez esta seja uma psicologia inversa: de que alimentam “desgraças” como aventuras para se libertarem de si mesmas (percebido também pelo histórico “à margem da sociedade” de já terem se envolvidos em crimes). Elas são “choronas”, sensíveis, sentimentais, algumas evangélicas (presente pela musica de Aline Barros) e devotadas ao “marido”, que aqui se apresentam organizados, prendados, família, “jeitosos” e habilidosos com desenhos (flores, plantas de casa e colas “glitter”). “Cativas – Presas Pela Coração”, mesmo com despretensão naturalista, “estimula” também questões antropológicas populares dentro do meio social. Já os presos procuram nelas um porto seguro. Uma esperança também utópica-plantonista. Eles aceitam as “falsas” liberdades (escrever cartas, jogar xadrez) e as cartas lidas pela censura da “moradia temporária”. No longa-metragem, a diretora não mediu dificuldades. Há até cenas aéreas. É impossível não se emocionar, principalmente com o casamento entre um casal (mas com regime parcial de bens – logicamente que elas confiam, confiando). “Fui me apaixonar justamente pelo complicado”, confessa-se quase em um “plano de vida”. “Cativas – Presas Pela Coração” tem a função também de representar um álbum de família para os envolvidos. Um sonho. Um sucesso. Uma forma desses momentos serem eternizados pelo meio cinematográfico. O filme é dedicado “Para o Meu Amor” e “A mulheres que amam demais”. Concluindo, um documentário delicado, necessário, obrigatório, sincero, honesto, divertido, emocionado, libertador, tenaz, sensível, amigo, valioso e desprovido de preconceitos. Um documento real de uma das vertentes de nossa sociedade e que liberta pela verdade não dramática e ou estilizada. Definitivamente, o espectador é “preso pelo coração”. A diretora já havia abordado o universo das mulheres apaixonadas por homens que estão presos no curta-metragem “Visita Íntima”. Inclusive, uma das entrevistadas no voltou a falar quando foi rodado este longa-metragem. Recomendado.

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