Por Fabricio Duque

Uma das características marcantes do diretor britânico Ken Loach é retratar a história das figuras político-sociais (contrárias ao sistema autoritário) que lutaram pela liberdade contra a ditadura governamental (IRA) e da igreja católica (bem mais acentuada na abordagem do filme em questão). Em “Jimmy´s Hall – O Salão de Jimmy”, não poderia ser diferente. O cineasta opta inicialmente pela narrativa clássica, de teatro anti-naturalista, para aprofundar o realismo romanceado, quase um documentário participativo, principalmente pela presença da câmera próxima como se fosse um personagem. É inegável não referenciarmos “Ventos da Liberdade”, seu filme de 2006. Aqui, o diretor preocupa-se milimetricamente com a direção de arte e figurinos a fim de “trazer” a época passada (personificada e verossímil de uma Irlanda no ano de 1932) à percepção atual do espectador. O roteiro, baseado na história real de Jimmy, não se utiliza do artifício de esperar e apresenta de imediato o conflito da trama, que gera maestrias pela presença da trilha sonora de jazz clássico e “negro” (de felicidade simples e alegria radiante) que contrasta com a “estrutura” religiosa (de rigidez dogmática e culpa estimulada – que “pega carona” nos preceitos de Deus para “impor” vontades e dominações financeiras – que considera a música como “movimentos pélvicos libidinosos”). A pergunta recorrente do longa-metragem, que foi exibido no Festival de Cannes 2014, é “Por que um salão cultural – que incentiva o conhecimento, aulas de graça, música e se divertir – pode ser considerado um instrumento tão provocador e perigoso?”. Conta-se a história de Jimmy Gralton (o ator Barry Ward) que retorna à cidade em que nasceu após um autoexílio de dez anos em Nova York, devido a uma perseguição que sofreu dos líderes locais pelo fato de ser comunista e defensor da liberdade de expressão. Ele pretende levar uma vida pacata, mas os jovens da cidade e seus velhos amigos insistem para que reabra o antigo salão. A iniciativa não agrada o padre Sheridan (Jim Norton), que logo se torna um ferrenho opositor de Gralton. “Jimmy´s Hall – O Salão de Jimmy” critica o autoritarismo e coronelismo das comunidades rurais (explicitamente ao abordar as “liberdades” pecaminosas do poderoso Padre e, implicitamente, sendo quase impossível não referenciar ao filme “A Vila”, de M. Night Shyamalan, e ou “A Fita Branca”, de Michael Haneke, e ou até mesmo “A História da Eternidade”, de Camilo Cavalcante). Não há como o espectador sair imune, graças à câmera sinestésica que “desperta” a revolta interna de cada um em prol do social e da liberdade, palavra essa que está mais e mais polida nos dias atuais. Chega a ser contraditório. Lutou-se tanto pelo fim das ditaduras e agora, o próprio indivíduo perpetua seu próprio politicamente correto, preconceituoso e com foco limitado. Concluindo, “Jimmy´s Hall – O Salão de Jimmy” é recomendado pela simplicidade despretensiosa e inocência nostálgica embutida que o diretor Ken Loach não cansa de resgatar.

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