“O cinema de Pedro Costa é sobre a aceitação das características das coisas”, disse o fotógrafo 
Leonardo Simões.


Por Fabricio Duque
Há muito tempo, o Vertentes do Cinema não saía tão impactado (e “chapado” – a palavra certa) de uma exibição de um filme. Desta vez, foi com “Cavalo Dinheiro”, do realizador português Pedro Costa. O longa-metragem, vencedor na categoria de Melhor Diretor no Festival de Locarno 2014, busca aprisionar o espectador em sua narrativa claustrofóbica e sinestesia. É incrível a carga emocional (seca), que se traduz de forma magistral, principalmente, pela fotografia de sombras soturnas, criando a metáfora do ambiente mental. É de dentro para fora com suas memórias (ou talvez loucuras) personificadas em diálogos em off e pelo elemento da estatua viva. Definitivamente, não é um filme fácil ao escolher caminhar pela estrutura não convencional, porém é exatamente este direcionamento que o diferencia, confrontando questionamentos. Aqui, a trama apresenta-se como um simbolismo realista, induzindo uma prisão, ou um hospital militar, ou um limbo, ou um hospício, ou até mesmo tudo junto e misturado. A câmera estática, narração sussurrada quase inaudível, planos longos, existencialismo por ações lentas, doentes e tediosas, silêncios e seus monólogos sociais (de repetição) corroboram ao cinema de inferência, característica marcante de Pedro. Altera a realidade com a própria realidade, intercalando lembranças encenadas, videoclipes musicais amadores (propositalmente ao escolher não-atores) e um misticismo ultra-concretista, por informações em gotas homeopáticas. Há estética pela luz e crítica resignada à situação de Cabo Verde por “quadros” iluminados que revisitam um passado destruído. Induz-se. Todo o tempo. Os personagens vivem anos na escuridão e no elevador quando medos, culpas, tragédias, impossibilidades e dificuldades ganham vida e libertam a alma. Pela loucura, talvez? O menos importante no filme é sua conclusão definitiva, “Cavalo Dinheiro” passeia através de pessoas e reitera outra marca de Pedro Costa, o tempo preciso – sem correr e sem parar. Recomendado.

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