Masterclass: Diretor 
Lisandro Alonso com Marcelo Gomes

Por Fabricio Duque

A Programação Especial  do CINE CEARÁ 2015, contou neste sábado (dia 20, às 16h, na sala multiuso do Cinema do Dragão do Mar – Fundação Joaquim Nabuco) com os diretores Lisandro Alonso e Marcelo Gomes em uma MASTERCLASS sobre criação, paisagens, roteiro e curiosidades, basicamente sobre as escolhas cinematográficas de seu novo filme JAUJA.  A seguir, confira trechos, incluindo a pergunta do Vertentes do Cinema e a resposta que fez todos rirem.
“É pela paisagem que o inicio o filme”. “É como se os microfones e câmeras nunca estiveram lá e descobrir a natureza e novos territórios. Jauja é o Eldorado. Um lugar prometido, e o título foi escolhido de uma lista de cinco mil números, que também representa a questão da abundância e do lado místico. O personagem do ator Viggo Mortensen vem com uma missão de colonizador. Isso ajuda a plateia a se localizar nesta viagem, nesta atmosfera. É pontuar a localização. Para mim, foi um desafio fazer um filme em outro período (temporal – época) e fora da Argentina. Não queria uma película que identificasse um tempo preciso, um livro preciso. Nunca podia saber se este dinamarquês era de época ou atual. Tem uma diferença entre a forma de como fala o pai e a filha. Poucos elementos poderiam falar sobre a questão da conquista do deserto na Argentina”. 

O diretor AKI KAURISMAKI serviu de inspiração explícita (visto que o fotógrafo Timo Salminen é o mesmo dos filmes do diretor filandês),  “dando uma atmosfera propositalmente artificial, porque a fotografia é com lâmpadas e não com velas. É muito dura. Como num set. Cinema é criar uma ilusão. Eu acabei aprendendo muito sobre de onde vem a luz e um pouco mais sobre a iluminação”.

Tudo no filme parece mágico, artificial, fake, onírico. “Não tinha a preocupação de seguir um filme épico tradicional. É Como um universo sonhado, que termina como o personagem pisando na lua (como no filme de 1966 “The Shooting – Disparo Para Matar”, de Monte Hellman,  com o ator Jack Nicholson, como referência)”.

Quanto à utilização da Janela 4:33. “O formato da tela foi um erro, porque sempre que chegava o material do Tranfer (a forma de condensar o filme), estava cortado. E assim, mandei todo mundo à merda e assumi o formato”.

“Não sou um especialista, nem um cinéfilo. Não vejo muito filmes. Nunca pensei em fazer um filme de Western, nem de desconstruí-lo.

O formato novo dava muito chão e muito céu, assim deixava o personagem mais solitário. O fotógrafo não gostou da ideia, ficou três dias sem falar e depois acabou aceitando”.

“Depois de trabalhar com um ator ator, que aprende e entende muito mais rápido o que o diretor quer. Diferente dos trabalhos anteriores de usar não atores. Mas também agora mais perguntas eram feitas sobre a parte técnica, e assim dava mais clareza do porquê de se utilizar a câmera desta ou daquela maneira. A atriz do filme JAUJA nunca atuou, e eu estava preocupado. Mas o Viggo disse: se ficar bom, você diz corta, está ótimo. Se não ficar, você diz que precisa fazer outro take”. 

“Uma paisagem tem o mesmo valor de um personagem. A mesma importância. Os não atores estão atuando suas próprias vidas e não encenando Shakespeare. Fazendo o mesmo que fazem diariamente. O que dizer para o Viggo sobre interpretação? 

“O roteiro tinha vinte páginas. Como dar criação ao filme? Pela precisão da imagem? Não quiseram dar dinheiro por parte da Dinamarca por causa das vinte paginas (principalmente por não ter diálogos). Foram vinte e sete cenas e quatro improvisadas. Todas as cenas eram o que se conduzia ao roteiro. Junto com o roteiro, mandava também uma carta explicando o porquê das poucas páginas”.

Os diálogos foram escritos por um novo amigo poeta. “A experiência foi boa, porque agora eu tenho um amigo e ele é poeta. Não consigo imaginar os filmes através dos roteiros. A equipe não lê o roteiro. Aos não atores assim felizes igual ao Mariano é melhor não falar em diálogos. Mas passo sempre indicações para dar mais segurança para as cenas filmadas”. 

“A paisagem é a primeira coisa que causa impacto a ele. E então começo a fazer viagens a pontos que nunca fui. O próximo filme por exemplo, a única coisa que sei é que quero filmar na Amazônia ou em alguma floresta selvagem. E ir em lugares que nunca fui, nunca vivi, criar culturas diferentes e pensar o passado, presente e futuro a todo tempo.

Eu estou todo o tempo dando muita informação a equipe como o perfume, outros filmes como referência. O roteiro é só uma ferramenta”.

O VERTENTES DO CINEMA perguntou sobre como ele conseguiu extrair tanta interpretação dos animais, especialmente do cachorro. Lisandro Alonso respondeu: “Era um cachorro muito estúpido, muito cansado, e foi o mais caro do filme, já que o Viggo trabalhou de graça. Risos. Precisei pagar uma passagem de avião porque o cachorro não cabia na jaula e tive que chamar mais dois acompanhantes. Mas o truque que eu utilizei no filme, eu não digo”. Todos riem. 

O que um filme tem que ter para chamar sua atenção? “Gostar muito de contar uma história e fazer de mim um espectador. Que faça gerar perguntas e sobre a relação do que estou vendo. Cinema é uma expressão artística muito jovem. Tem muito de ser desbravado. E sempre se questionar”.

“Escolhi o isolamento geográfico, a fim de estimular a loucura que os acomete. Uma saída da zona de conforto em um universo isolado. Gosto mais de observar os personagem e como são vítimas nestes (destes) lugares. É difícil conviver nestes lugares. Gerações que foram maltratadas na vida e refletem melhor sobre estas questões. A violência aparece naturalmente.

Deixar a impressão que o espectador perceba que o diretor está por trás da câmera. Escolho começar por um plano vazio, desenvolver a ação e volta ao plano longo. Causa estranhamento e que dentro do plano o espectador possa fazer perguntas. Desta maneira é fácil criar uma conexão com quem assiste. E com estes perguntas é que se cria o elo entre o espectador e o realizador. Gosto muito de observar. Observo todo tempo”. 

Aguarde o vídeo produzido pelo Vertentes do Cinema!

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