Por Fabricio Duque

No filme “O Homem do Rio”, do
diretor francês Philippe de Broca (de “Esse Mundo é dos Loucos”, e que foi o 1º
Assistente de Direção de “Os Incompreendidos”, de François Truffaut),
conserva-se a estrutura francesa da ‘Nouvelle Vague’, respeitando suas
características típicas e o estrangeirismo até o final. Aqui, a narrativa (de
elipse, som ambiente na maioria do tempo, e edição ora acelerada, ora de
espera) utiliza-se de referências aventureiras de “A Pantera Cor-de-Rosa”, de Blake
Edwards (este realizado um ano antes do longa-metragem em questão – e menos “debochado
ao ridículo” que o do Inspetor Jacques Closeau) à saga “007”, a fim de conduzir
o espectador a liberdades poéticas da física-quântica-temporal que ultrapassam
o limite humano das possibilidades de salvamento, quase “portais tridimensionais”
desprovidos de perigos e “machucados”. Em “O Homem do Rio”, tudo é
hiperdimensionado (inclusive a abertura multicolorida), gerando uma epifania
sintomática, que pode ser explicada pela projeção fantasiosa da mente do nosso
protagonista, Jean-Paul Belmondo – sendo Belmondo (de “O Demônio das Onze Horas”,
“Acossado”). Há franceses “famintos”; ladrões “espertos” (facilidade do roubo);
policiais “bobões” e displicentes; segredos de estatuetas “Maltecas”
amaldiçoadas; reações exageradas e encenadas (a risada, o sequestro) – como uma
ópera tendenciosa ao mistério (porém óbvia), contemporânea e dramática;
passagem ao Brasil, comprada com moedas e sem passaporte (pela Panair do
Brasil). Daí, o filme representa um retrato histórico do início dos anos
sessenta pelo Rio de Janeiro, Brasília e Amazonas, com suas tomadas aéreas, o
calor, a praia, o Centro do Rio, Copacabana, o aeroporto Santos Dummont, a
música do morro, soldados na rua, o jornal O Globo, o menino “malandro” engraxate
(chamado Wilson, uma referência ao “brasileiro” do filme “Samba”, provavelmente,
e que se apresenta como poliglota sozinho em uma casa ‘ultra’ projetada
manualmente), a melancia, o buraco da fechadura “gigante”, a janela quase “porta”,
a nostalgia do sol de fim de tarde em uma praia deserta (quase Dorival Caymmi),
a fotografia sombreada pelo céu do por do sol no morro, a cama rede, nadar na
Baía de Guanabara (mais rápido que o barco), o picolé, moradores locais
sambando, carros explodidos e em cor rosa com estrelas verdes (talvez aí seja o
indicativo da fantasia) e a viagem do Rio a Brasília, passando pelos monumentos
turísticos e políticos. Tudo é permitido. A imaginação “corre solta”. Caminha-se
entre a malícia e a ingenuidade. A subserviência medrosa e a arrogância
sobrevivente. A festa, os fogos de artifício, o helicóptero, vestidos de gala
com capacetes protetores, a corrida sem parar, a bicicleta ao acaso, tudo causa
um efeito terapêutico nos estrangeiros, que observam nossa caricatura como
férias, incluindo reviravoltas toscas, patéticas e resolvidas como um “conto de
fadas”, como por exemplo, um francês passeando pelo rio Amazonas e encontra
nosso personagem principal quase sendo devorado por um crocodilo depois de cair
de um avião que aprendeu a pilotar naquele momento. O paraíso é o Amazonas. “Garotas,
bebidas, músicas”, diz-se. Entre “gorilas brutamontes” e atmosfera de “Zé
Carioca” com Carmem Miranda, passando por Oscarito, “O Homem do Rio” “apela” ao
cipó “Tarzan”, brigas gratuitas, ogras e selvagens, para “resgatar” a mocinha e
fornecer a mensagem da ganância punida. Concluindo, um filme que parece um “Indiana
Jones e os Caçadores da Arca Perdida” abrasileirado (que foi a inspiração para
que Steven Spielberg criasse sua aventura), e que a frase final definidora da
fantasia é “Tive que atravessar Paris inteira”, e a resposta é “Que aventura!”.
Uma dica ao espectador: tente retroceder à época de realização do filme para
que a experiência seja bem mais divertida e interessante! “O Homem do Rio”, indicado
ao Oscar de 1965 na categoria de Melhor Roteiro Original, foi apresentado, em
cópia restaurada no Festival de Cannes 2013, no Cinema de La Plage, e ganhou os
cinemas de Paris. Recomendado. 

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