Preâmbulo Passional


Por Fabricio Duque

Cada um de nós possui uma idiossincrasia que impede a excelência do ser agir totalmente. A minha é remoer surpresas positivas. Quando gosto muito de um filme, por exemplo, eu não consigo desferir opiniões. Penso, sinto e atraso o texto. “Entre Abelhas” é um deles. Permito estender a experiência da degustação. Por que sei que é bom? Porque fico introspectivo, estranho e reflexivo, até mesmo sem querer conversar. E quem me conhece, sabe que falo sempre e muito. Mais uma vez, o atraso acontecerá. O processo de organizar sensações e as transformar em coesão técnica é demorado. Pode ser uma falha e ou uma maestria. Só sei que “Entre Abelhas” vale cada dinheirinho pago no cinema. 

Crítica



É inevitável a comparação estilística de “Entre Abelhas” com “Porta dos Fundos”, até porque aqui há tanto o diretor Ian Sbf, quanto o elenco, destacado no protagonista, o ator Fábio Porchat (que perdeu seis quilos para o papel), que começou a escrever o roteiro há nove anos, inspirando-se nos filmes “Ela” e “Mais Estranho Que a Ficção”. A narrativa “imagina a história como algo low profile” e imprime a estranheza temática como condução intermitente. O título faz referência a um suposto sumiço de abelhas da América do Norte e da Europa (“insinuadas” por uma matéria documental televisiva na própria obra em questão). A trama busca “abrigo” na atmosfera literária do escritor tcheco realista fantástico Frank Kafka (de “A Metamorfose”), que proclama arquétipos e alienações crítico-sociais. “Entre Abelhas” apresenta-se como uma fábula surrealista a La José Saramago, por criar paralelos metafóricos do comportamento contemporâneo que desencadeiam a “incomunicabilidade, individualismo, depressão e exclusão”, tudo vivenciado em uma pseudo sociedade que “tenta” a democracia do indivíduo, mas que só reverbera  hipocrisias egocêntricas. O simbolismo personificado é servido para que possamos confrontar nossas ações e reações perante a “pessoas invisíveis”, como porteiros, motoristas de táxi, e até a família. Luta-se para que a individualidade preceda a coletividade, assim, sumimos e desaparecemos com o outro próximo que a cada dia está mais distante de nossas preocupações e atenções. Hoje em dia há um eterno embate entre ouvir e a oportunidade do ser ter as ideias escutadas. O longa-metragem mantém o controle da escolha narrativa até o final, mitigando a felicidade fantasiosa projetada do estado palatável e aceitável e corroborando a mensagem de que a temática concretista não “começará a enxergar”, como em “Ensaio Sobre a Cegueira”, por exemplo. Por isso, por ser corajoso e ser realizado “da forma que queria”, “Entre Abelhas” é uma pequena obra de arte de “assalto” às sensações de cada um. É engraçado, perspicaz, dramático, emocional, e acima de tudo, equilibrando os elementos citados em um linha racional de despretensão do próprio existir. “Todos precisamos do outro e vivemos uma ilusão de que nos bastamos”, finaliza Fábio. Recomendado.

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