Por Fabricio Duque

Talvez o título de complemento abrasileirado, “Uma História que chocou o mundo” do filme “Foxcatcher”, que venceu Melhor Roteiro no Festival de Cannes e que está indicado ao Oscar seja deveras exacerbado e até um pouco ingênuo. Baseado em fatos reais ao abordar a vida e a “consequência” psiquiátrica do milionário John Du Pont, o longa-metragem faz com que sua narrativa “cozinhe em banho-maria” em fogo baixo. Assim, sem pressa, constrói a complexidade do personagem principal, interpretado pelo ator Steve Carell, que está irreconhecível, tanto na forma de atuar, quanto na caracterização física (tendo utilizado uma prótese – “desenhada ao longo de vários meses” – ara que se assemelhasse o mais próximo do “representado”. “Foxcatcher” utiliza-se da estrutura da observação realista, criando a naturalidade cotidiana, lembrando em muito os filmes de Steven Sodeberg e principalmente “Elefante”, de Gus van Sant, por fornecer tempo às ações. O diretor Bennett Miller (de “O Homem Que Mudou o Jogo”e “Capote”) tem predileção por “personagens” controversos, mas opta pelo equilíbrio humanizado, seguindo a máxima de que “ninguém é tão ruim quanto parece”. O roteiro “trabalha” as causas e desvios do protagonista, e de uma certa forma critica a pátria pelo próprio patriotismo. É a tão sonhada busca pela aceitação, pelo sucesso e pela admiração, e se conjugada com uma situação financeira milionária, o grau da cobrança competitiva e do “resultado” positivista torna-se quase uma psicopatia adquirida por anos, ora por julgamentos familiares, ora por uma sociedade que só “premia” os mais fortes. Aqui, vemos atletas quase “ogros”, de raiva “permitida” e na mais “baixa posição”. São lutadores que “entregam” a vida à recompensa da vitória. Essa “humanização” desperta não a distância do espectador e sim a total aproximação. Vemos Du Pont como um ser sem maestrias, perdido, fraco, que precisa se escorar em “campeões” para que sua vida seja menos miserável. Sentimos pena e entendemos, por incrível que pareça, o desfecho trágico. Somos manipulados a este final, que perde ritmo talvez por causa do tempo de cozimento. Passa do ponto. Porém, em hipótese alguma, é desinteressante. Pelo contrário. Além do mais, é um filme de atores (visto a intensidade dos ensaios e de entrega – como a cena da “cabeça no espelho” e ou os constantes socos, gerando até tímpanos estourados – e de diretor. Tipicamente autoral com planos subjetivos e cortes milimétricos e afiados.

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