Por Fabricio Duque

“Para Sempre Alice” do inglês
“Still Alice” (permaneça Alice) apresenta-se tipicamente como um filme de ator,
neste caso de atriz, visto que todos os coadjuvantes “trabalham” para
que um principal possa brilhar. Não é para qualquer um, ou uma. A
responsabilidade em expor o talento exigido é tamanha. Julianne Moore aceitou o
desafio e construiu sua personagem com delicadeza em um sutil processo
quebra-cabeças. É inquestionável sua entrega competente e visceral, já visto em
seu penúltimo filme “Mapas para as Estrelas”, de David Cronenberg, no
qual interpreta uma “louca” idiossincrática. Se um membro do Oscar
pensasse diferente, logicamente a indicaria, claro, mas pelo anterior. Mas não
em hipótese alguma o longa-metragem em questão aqui é ruim. Pelo contrário,
podemos compará-lo a “Benjamim Button”, por causa de uma doença que
cria a regressão mental. Parte-se da inteligência “consumista” à infância
indefesa da vulnerabilidade. Se no filme de David Fincher a personificação é
explicita, em “Para Sempre Alice”, dos diretores Richard Glatzer e Wash
Westmoreland (de “Meus Quinze Anos”), a introspeccao é silenciosa. Julianne
integra um time de atrizes que interpretam com sinestesia emocional.
Vivenciamos, sofremos e lutamos por suas ações, assim como seus
“colegas” (time de atores que inclui Alec Baldwin e Kristen Stewart)
que trocam fluidos equilibrados, gerando uma sensação de simetria naturalista.
É real, mas também é cinema, conjugando técnica e desprendimento. Aborda-se o
tema do Alzheimer, uma doença neuro degenerativa, talvez um dos medos mais
comuns do ser humano: se esquecer de si mesmo e suas memórias, sentimentos,
desejos, entrando em um estágio vegetativo da submissão pensativa. O pavor de
perder o intelecto, um “tesouro acumulado ao longo da vida”. “Still
Alice” é a fabula de se continuar sendo quem é. De “prisão” reversa
às “conquistas”. De se “retornar” ao “país das maravilhas”. Talvez,
esquecer é “libertar” o próprio eu, fornecendo novas perspectivas,
mitigando ansiedades e acalmando a “comunicação”. Ser menos. Ser simples. E
assim sem perceber, questionar o real sentido da vida. Quantas vezes esquecemos
palavras, nomes, telefones. Vivemos em uma verborrágica pista de corrida.
Esquecer talvez seja uma dádiva. Nossa fuga. Nossa libertação. Podermos
experimentar plenamente nosso mundo único, sem ninguém, lembranças,
compromissos sociais impostos. Eu me recordo de minha avó, que nos últimos dias
não se lembrava de nada e ria de tudo. Também quero rir. Sem preocupação. Portanto,
o Oscar é seu Julianne, não que isso importe, não é mesmo?

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Artigos Relacionados