“Eu acho que foi alardeado demais
como um thriller. Mas é, obviamente, um thriller estranho, porque sabemos que
ela está viva e não há pânico para encontrá-la. Todos os elementos criam uma
aura de suspense interno. É mais uma espécie de peça de humor, então eu não
esperava mais do que um enredo tradicional, Somos uma espécie que vivemos no
labirinto de presente interno, onde as pessoas ficam repetindo cenas em sua
mente. Todo o filme é estruturado em torno desta ideia de pessoas repetindo um
momento. É um pouco de uma máquina de tortura. Este é um filme arriscado. Não
é contado de uma forma convencional. É um material muito escuro. E é
feito para provocar respostas.”, disse o diretor Atom Egoyan, durante o
Festival de Cannes. 

Por Fabricio Duque

“À Procura” recebeu, no último Festival de Cannes, críticas apáticas, de unanimidade negativa, de “frieza destrutiva”, quase constrangedoras (incluindo a do Brasil). Mas aqui, houve surpresa pela repercussão dos críticos, que
estão enaltecendo este novo filme de Atom Egoyan (que já repetiu o gênero
suspense em “Sem Evidências”, “O Preço da Traição”). O diretor canadense construiu
um renome com os filmes “Longe Dela”, “Ararat”, “O Doce Amanhã”. Em “À Procura”,
a trama fragmentada por elipses “labirinto” aborda o desaparecimento da filha de um casal (Ryan
Reynolds e Mireille Enos). O
quebra-cabeça de gênero filme Coral (inicialmente – por retratar personagens em
vidas individuais que se cruzam) é desenvolvido aos poucos, fornecendo elementos
narrativos não lineares, visto que se passeia entre o pretérito perfeito, o pretérito
mais que perfeito e o presente. Busca-se uma seriedade cênica, de credibilidade
contextual, porém o “caminho” escolhido não foi o dos melhores. Desde as
primeiras cenas, o espectador percebe que está sendo conduzido pelo universo
cinematográfico dos “clichês ambulantes”. Utiliza-se recorrentes gatilhos
comuns para que a história possa acontecer. O ambiente escolhido foi Ontário, em Niagara
Falls, fronteira com os Estados Unidos, tendo a neve “nevasca” como fio condutor
(“tentando” referenciar “Fargo”, dos Irmãos Coen, logicamente sem sucesso). Então, nós temos a neve; um
desaparecimento de uma criança de nove anos (enquanto o pai compra sorvete de
chocolate em uma loja de estrada); policiais que “lutam” para descobrir
pedófilos; pistas “confusas” que “obrigam” uma manipulação ingênua, infantil e
não convincente; um “sequestrador amigo”; e uma “vítima” com Síndrome de Estocolmo (apaixonada pelo seu algoz). A primeira pista sobre a garota surge
apenas seis anos depois, quando os policiais estão investigando uma grande rede
de pedofilia. Para a surpresa de todos, Cass tem um importante papel na
organização, já que é ela quem entra em contato com as crianças pela internet
para atraí-las. Apesar disto, ela segue sendo mantida em cativeiro por seu
raptor, Mika (Kevin Durand), que “corrompe” todo um sistema para que seu “Clube”
permaneça ativo. Atom “quer porque quer” mesclar características do gênero de
ação, suspense, thriller, drama e Cult. Contudo, sua passionalidade sobrepuja-se
à técnica. Temos aqui uma exacerbada estrutura sentimental por interpretações forçadas,
teatralizadas, caricatas, inconsistentes, melodramáticas e despreparadas,
gerando uma percepção de uma preguiçosa direção de “efeito”. Como já foi dito,
clichês reverberam clichês dentro de um roteiro frágil, óbvio, cansativo,
desengonçado e com a extrema pretensão de se comportar como inédito e
surpreendente, transformando em “obra-prima” um “filme B mexicano”. Talvez, seu
pecado maior seja não se assumir como uma cópia de histórias idênticas, por
exemplo, no filme “Os Suspeitos”, de Denis
Villeneuve, que uma filha também é raptada com seis anos.  Em hipótese alguma, há aqui contradição xiita
sobre a repetição temática. Nunca. O que incomoda é a “refilmagem” desordenada
e não competente. Questionamos se este roteiro – palatável e de facilidade “degustada”
– consegue ser rentável pela demanda do público ou pela massificação do costume
(de exibição em centenas de sala – caso do filme do “Jogos Vorazes 3 – Parte 1”
em “exibição predatória” de quase setecentos cinemas). Caímos na máxima do “Tostines”.
“Vende mais porque é fresquinho, ou é fresquinho porque vende mais?”. Não se
sabe se este é um filme para o grande público, visto que desde o início se
firma como um produto híbrido. Não é totalmente comercial, não é totalmente
independente, não é totalmente um suspense. Resta saber, o que o filme
realmente é? Um longa-metragem que foi adiado para que uma melhor campanha de
marketing não desse “spoilers” de antecipação da trama. Uma das características
de Atom Egoyan é contar logo quem é o “vilão” e daí dar voltas e mais voltas
até seu desfecho. Concluindo, um filme que é previsível, que não respeita a
inteligência do espectador, que se perde ao tentar “confundir” com dicas “infantis”,
que “tenta enfiar goela abaixo” do espectador a metáfora do título original “The
Captives”, de que todos estão presos por causa deste acontecimento trágico de
suas vidas. 

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