“Eu estava procurando por algo
que nunca havia visto antes. O livro falava de narcisismo de um jeito muito
interessante – 
da forma com que nós criamos não só uma versão ideal de nós
mesmos com a esperança de seduzir um parceiro, mas na esperança de seduzir
alguém que provavelmente está fazendo a mesma coisa. Gillian estava reparando
no que é que coroe a base do casamento. Eu sou um ótimo colaborador como
diretor, mas não sou um roteirista. Eu acho que escrever é um jeito muito
difícil para as pessoas dizerem “Ei, fui eu que decidi que isso devia ser uma
contração.” Isso não é autoria. Quando um ator diz “Eu tenho um jeito melhor de
se dizer isso”, eu não o considero um roteirista, eu considero que ele é um
ator fazendo o que ele deve fazer”, disse o diretor David Fincher.

Por Fabricio Duque

A versão cinematográfica de
“Garota Exemplar” causou quase literalmente uma “histeria” ansiolítica, tanto
por causa do recente filme do diretor cultuado David Fincher (de “Clube da
Luta”, “Seven”, “Zodíaco”, “O Curioso Caso de Bejamin Button”, “A Rede Social”)
quanto por causa dos fãs “apaixonados” ao livro homônimo Best-Seller adaptado.
É inquestionável a competência que o cineasta americano possui em contar
histórias em ritmo thriller de suspense com reviravoltas manipuladas (no melhor
sentido do adjetivo) sem previsibilidades. Trocando em miúdos, tanto o livro de
Gillian Flynn, quanto o longa-metragem “enganam direitinho” o espectador. Sua
característica marcante é a narrativa ágil de verborrágica, quase em estrutura
videoclipe. São muitos cortes, muitos planos, e em determinado momento, há
autodesconstrução ao estender os “passeios” da câmera. “Garota Exemplar”
Inicia-se, propositalmente (mas sem avisar) de forma artificial, fútil,
tentando uma cumplicidade forçada, mitigando naturalidade e exacerbando a
obviedade pelo recurso dos gatilhos comuns, incluindo uma “policial sensitiva”,
um pai “arredio” no asilo e de perspicácia fantasiosa. Aos poucos, porém se
fazendo perceber a mudança, esta “vida” romanceada ganha um tom mais realista.
“Nova Iorque tem padrões altos”, gera-se uma picardia. Mas uma situação incomum
e misteriosa acontece. No dia em que completa cinco anos de casado, Nick (o
ator Bem Affleck) descobre que sua esposa Amy havia desaparecido. A polícia e a
mídia começam a desconfiar do casamento perfeito demais e passam a apontá-lo
como o principal suspeito. Suas mentiras e seu comportamento estranho só pioram
a sua situação. Mas o que terá realmente acontecido com Amy? Então, com
menos da metade da duração do filme de quase duas horas e meia, Fincher já
“captura” totalmente seu público e na maioria das vezes sem a utilização da
trilha sonora. “Quem a levou, vai devolver”, debocha-se pelo comportamento
“metido” da “sumida”. É iniciado um jogo ao “tesouro” para achar a “garota exemplar”,
com dicas que levam a próximas pistas. O “comportamento estranho” de Nick
inclui rir em fotos “selfies”, tentar ser gentil demais com a imprensa e ser
“superficial” para sobreviver ao circo midiático de sensacionalismo, ceticismo
e esperança (“Mico treinado não leva injeção letal”). A narração explicativa, a
traição, as reviravoltas na investigação, as paranoias, tudo na verdade é
levantado para confundir. “Escritores não odeiam clichês?”, diz-se
sarcasticamente. A história revela a verdade. Arquiteturas de planos, amizade
com “idiotas locais”, artimanhas detalhistas e sistemáticas, forjamentos do
“amor” perfeito dos “sonhos”, manipulações de evidências, novas “ideias” pelo
acaso da mídia e da opinião pública. São psicopatias construídas ao acaso e ao
desejo passional extremista da “vingança” (inferimos explicitamente à parte do
casamento no filme “Relatos Selvagens”). A parte técnica, principalmente da
câmera – que “desliza” sutilmente – e da fotografia que lembra hoje a nostalgia
da fantasia, complementa a ambiência da perturbação mental, de discursos
ensaiados e jogos psicológicos de crueldade sem limites. “Adoro testes”,
finaliza-se. Concluindo, mais um filme que corrobora a maestria cinematográfica
de construir de forma autoral, peculiar e única tramas complexas. O
longa-metragem acabou de recebeu o prêmio na categoria de Melhor Filme, a
Hollywood Film Award, e ainda os prêmios de melhor som e roteiro, na cerimônia
de entrega do Hollywood Film Awards no Hollywood Palladium, em Los Angeles. 

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