Por Fabricio Duque
Nada melhor que conversar com o realizador Gustavo Galvão e as atrizes Simone Spoladore e Denise Weinberg para entender melhor as “escolhas” objetivadas no filme “Nove Crônicas Para Um Coração Aos Berros”. O encontro-debate aconteceu no Cine Joia, o espaço-cinema mais descolado de Copacabana no Rio de Janeiro, em uma noite de um sábado calorento e com lotação máxima.
O brasiliense Gustavo Galvão nasceu em 18 de agosto de 1976, fez especialização em cinema em Madri, na Escuela Superior de Artes y Espectáculos, e se formou em Jornalismo na Universidade de Brasília. Repórter e crítico de cinema do jornal Correio Braziliense, de novembro de 1996 a julho de 2002, Gustavo “provavelmente” entende o que nós críticos tentamos traduzir.
O filme em questão (realizado com quinze mil reais – sem querer “fazer apologia ao pequeno valor”) apresenta-se “propositalmente”, “irregular como a vida” e teve a mediação de Rodrigo Fonseca, do jornal O Globo, cuja verborragia referencial encanta e ambienta o espectador-ouvinte em suas “viagens” epifânicas de catarse informativa passional, fornecendo “resistência” e “generosidade” como adjetivos marcantes desta conversa e que complementou que de “tão banal (a história em si), é surreal”. “É rir de uma banalidade que você não espera”.
Logicamente, os participantes do longa-metragem são, sem sombras de dúvidas, os mais importantes para se ouvir. Então, com a palavra, o diretor Gustavo Galvão. “Este filme representa o momento do estalo, quando você percebe que tem que mudar o caminho”. “Reparo em certas coisas por ser de Brasília como a característica de se isolar”. “Esses personagens são colocados na parede e só dependem deles e de mais ninguém, se tomam a decisão de mudar ou se ficam na mesma”. “São escolhas definitivas”. “Não é citado nenhuma cidade”. “É uma cidade fictícia como qualquer outra e o estrangeiro é um dos poucos que sai à rua e que explora a cidade”. Os outros vivenciam interiores em ambientes de casa como camas, banheiros, cozinhas e repartições trabalhistas. “A fotografia distanciada é a estrutura narrativa”. “Sempre tive crise em saber onde colocar a câmera para trabalhar com graus de percepção da imagem”. “A câmera colada no ator é um clichê, um abuso, e eu tinha a necessidade de ver mais”. “O espaço de Brasília está atacando você, assim busquei mais uma interpretação do espaço, que traduz desamparo e solidão”.
Sobre as referências cinematográficas, Gustavo diz que “dialoga com Roy Anderson (“Você e os Vivos”) e foi conectado a Jim Jarmusch e Aki Kaurismaki”. “Não vejo filme brasileiro que tenha conexão com “Nove Crônicas Para Um Coração Aos Berros”, mas é livre de referências, talvez “Todas as Mulheres do Mundo” por ser um mosaico – azulejos que não conversam entre si, mas tem unidade”. “É uma capacidade de se relacionar com o diferente”. “O problema do edital é que formata um tipo de cinema que funciona só no papel”. “É uma geração de roteiristas de manual”. “Busquei flexibilidade porque não tinha um roteiro formal”. “Meus pais não se falam há vinte anos, mas não são separados, assim analiso os dois de separadamente”.
Quando Denise Weinberg inicia seu discurso, os espectadores-ouvintes recebem uma “coloquial” aula didática. “Eu adoro texto”. “Estudo muito a palavra”. “Trazer da forma mais humana possível, camadas em baixo de outras coisas”. “Tem que ter generosidade e confiança no outro, em quem você está dividindo sua atuação”. “Ninguém sabia das outras histórias, apenas das suas”. “Quando ela diz que o filho é um crachá ela atesta que as relações humanas são cruéis, com jogos perversos”. “As pessoas precisam associar para poder deglutir (a novidade) com aquilo que se conhece, por isso a referência”.
Sobre a preparação de elenco, Denise diz que “não existe a cota para experimentar nada”. “O diretor morre de medo da gente”. “Só se grita quando não tem poder”. “A vibração é fundamental, essa relação ator-diretor”.
E a nossa musa do cinema independente, que “adora trabalhar com diretores de primeiro filme” e que está em seu “apogeu”, Simone Spoladore conversa com sua voz doce, calma, sóbria e não glamourosa. “Eu aprendi a ter uma relação com o silêncio muito boa”. Sobre este filme, “é bom aprender a rir de si mesma”. “Fazer muitos primeiros filmes é poder trocar com a minha geração”. “São vários filmes com linguagens diferentes, e mil e outras maneiras de se estar em cena”. “Aqui, são planos sequências e quase sem close, assim é o corpo que fala e um dialogo que se constrói”.
Tinha mais. Muito mais. Como sempre. Cinema é isso. Poder trocar experiências e informações sobre o universo da sétima arte. E o Cine Joia está de parabéns. E a todos os envolvidos. Viva o Cinema!

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