“Disso tirei um estudo honesto
sobre o cotidiano de uma família comum com pais separados e irmãos que se amam,
mas também brigam”, disse o diretor Richard Linklater e complementa “Será meu
último filme, mas é o que precede a todos, muitos, tantos…”.  
Por Fabricio Duque
É possível imaginar,
espectador-leitor-cinéfilo, que um argumento cinematográfico, que levou doze
anos sendo realizado por causa de sua realidade temporal de fidelidade linear,
tenha “espaço” nos circuitos de exibição? Sim. Tudo pelo diretor americano Richard
Linklater, que saiu da “imaginação” e realizou a epopeia do cinema mais
competente já dirigida. “Boyhood – Da Infância à Juventude” representa doze
anos de existência literal de Mason (o ator Ellar Coltrane), analisando sua
relação com os pais divorciados (os atores Ethan Hawke e Patricia Arquette) de
uma típica família americana (boliche, bermuda, tênis e subúrbio), conforme ele
vai amadurecendo. O diretor, da trilogia “Antes do Amanhecer”, “Antes do
Pôr-do-Sol” e “Antes da Meia Noite”, “Jovens, Loucos e Rebeldes”, “Waking
Life”, tem como característica marcante imprimir em seus filmes uma narrativa
naturalista-realista do “menos é mais”, de fotografia solar e de nostalgia que encontra nossa
memória afetiva. O “complexo” é aprofundado na sutileza do “simples” por acontecimentos “corriqueiros”. O acaso torna-se elemento definidor às ações desencadeadas por
seus personagens. O filme comporta-se como uma ficção, mas é fornecido um tom estrutural de documentário, talvez pelo tempo gasto. Linklater utiliza câmera intimista e
edição em elipse, atestando por “a + b” sua maestria genial em contar histórias
cotidianas com discursos (quase monólogos) verborrágicos e absurdamente
naturais. Aqui, a música é um elemento de crucial importância para que a passagem
temporal aconteça, pois uma fiel ambientação da época abordada é criada. Lembrando que
doze anos se passam. Uma curiosidade importante é que a própria filha do
diretor participa como atriz (irmã do protagonista) e é “documentada” por mais de uma década. De novo.
Doze anos. Uma das mais longas produções da história do cinema (visto até mesmo
em sua duração de duas horas e quarenta e cinco minutos). É a odisseia do
crescimento, com suas mudanças, imaginações infantis, discussão dos pais (o pai
que quer ser amigo e não só um pai biológico), a descoberta do mundo dos “adultos”
e influências de casa e do mundo ao redor que estimulam fases (Britney Spears, Lady
Gaga, a festa Harry Potter, Ethan Hank cantando, os cortes de cabelo para “parecer
homem” etc.). A câmera passeia com total domínio do ambiente, tornando o espectador, um “observador plateia”. Há extrema sinceridade de ingenuidade não agressiva. Tudo no filme foi igual
ao tempo de filmagem. Entre frases como “Não há melhor Beatles”, as transições “únicas,
individuais e sensíveis” “dançam” o balanço de Linklater, que mostra uma “família
normal” com “grandes momentos capturados”. Durante a coletiva de imprensa no Berlinale
2014 (Festival que premiou Richard na categoria Melhor Direção), a frase
definidora foi “Young people always came (jovens sempre aparecem)” sobre “Ethan
estar velho”, diz Arquette e todos riem. “É estranho, mas o tempo passa rápido”,
diz o protagonista. “Perguntei se minha personagem morreria”, diz a filha “escalada”
 Lorelei Linklater. Foi
nesta atmosfera de leveza perspicaz e sarcasmo não agressivo que Richard
Linklater e seu elenco conquistaram de vez a imprensa internacional em Berlim.
O filme servirá como “memória” aos envolvidos (como um vídeo de uma família –
só que neste caso ficcional), pois registra momentos lá atrás (“o passado”) e que
serão “revelados” aqui, (“o futuro”), neste agora. É incrível como o diretor bagunça
tudo. Criando despretensiosamente metalinguagens, metáforas e metafísicas
antropológicas sem querer despertar nada disso. Richard Linklater foi o
responsável pela criação de Ellar, é claro, porque disse (influenciou e ou induziu) estilos
comportamentais deste crescimento. É muito “ufa”. Definitivamente, o épico “obra-prima
despretensiosa” corrobora que “A memória é a cor mais quente”. A produção começou a filmar (rodado
inteiramente na cidade de Austin, Texas) em julho de 2002 e finalizou em
outubro de 2013. Foram no total, 39 dias de filmagem em uma produção de 4.200
dias. O orçamento do filme foi conseguido pelo “autofinanciamento” do salário
de Linklater em outros projetos. A equipe se reunia, em períodos de três a quatro dias por ano, para as filmagens, discutindo a história e mudanças
no roteiro. É
considerado, internacionalmente, e de forma unânime, “o melhor filme da década”.
Concorda-se em número, gênero, grau e tempo. Nota máxima. Não perca! Até porque
“talvez” seja realmente seu último filme, fechando uma carreira brilhante em
altíssimo nível! Rezemos para que isto se configure apenas como um discurso
passional momentâneo. 

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