“Sempre digo que um longa-metragem
de ficção sobre a vida de uma pessoa nunca é para ser curtido por
quem viveu aquilo. É uma peça que nunca poderá ser considerada um
documento. Além disso, um filme que abrange cinco décadas pressupõe um milhão
de personagens, e isso é uma tarefa inviável, não cabe num único filme”, disse
o diretor Mauro Lima.
Por Fabricio Duque
É incrível como há uma
padronização em relação ao gênero da Cinebiografia de ficção produzida no
Brasil, reiterando-se assim uma narrativa romanceada e novelesca por enaltecer pontos positivos e humanizar as “derrapadas” do protagonista homenageado,
como é o caso do recente “Tim Maia”, baseado no livro “Vale Tudo – O Som e
a Fúria de Tim Maia”, de Nelson Motta, quem conviveu “assiduamente” e com
intimidade relacional com os abordados. O filme percorre cinquenta anos na vida
do artista Tim Maia, desde a sua infância no Rio de Janeiro até a sua morte, aos 55 anos
de idade. Se digressionarmos, logicamente dentro do contexto, então
perceberemos que a biografia realizada no gênero documentário possui uma estética
mais experimental, uma mitigação do elemento sentimental e uma abordagem não
unilateral. Entendemos toda a mítica por trás dos artistas musicais, que
“compareceram” aqui na Terra, vivendo de forma passional, exagerada,
abrangente, individualista, egoísta, libertária, desbocada, sem limites,
desafiadora, surpreendente, decidida, enaltecida, sôfrega, raivosa, descolada,
deslocada, impura, rasgada e não linear em quereres e objetivos. Então é de se
esperar uma “sobrenatural” responsabilidade em quem deseja “traduzir” esses
“tipos” consagrados como “gênios”. Aqui, o “rei do Soul”, anteriormente “Tião
marmita” e do grupo “Os Tijucanos do Ritmo”, Tim Maia, é apresentado com
suavização palatável das polêmicas “consequências” de sua vida. O roteiro tem a
narração de Cauã Reymond, um dos personagens importantes na “trajetória” do
artista em questão aqui (que buscava tocar “música de negro” e “funk” “swingado”, passando pela música “convertida” à doutrina “psicodélica” do
“Racional Superior”, e por “livros” magnetizados), e, cria um preâmbulo, em
fotografia preto-e-branco a fim de ambientar, resumidamente, registros passados
(e passagens do tempo) do cantor. O espectador, logo no início, percebe o tom
que é fornecido ao filme. Como já foi dito, a estrutura novelesca
romanceia a história com amadorismo e ingenuidade, tentando-se uma pureza
nostálgica. “Conseguiu tudo que teve e tudo que perdeu nesta vida”, diz-se,
entre frases de efeito indicativo, que “escancara” (com sutileza polida e sem aprofundamentos maiores) Tim (“um coiote gordo
furioso”, um “inquieto desbravador” e  com “uma vontade obtusa de doutrinar sua
fúria explosiva”), meio infantilizado, como nas reviravoltas
(desistir do show, por exemplo) forçadas e mimadas, “pedindo” cumplicidade para
“aceitar” a totalidade da credibilidade da trama. Há intercalação de
“descidas” (inglês técnico e articulado – como se falasse lento para um
estrangeiro entender) e “subidas”, equilibrando-se na corda bamba do limiar
aceitável. O diretor Mauro Lima (de “Meu Nome Não é Johnny”, “Reis e Ratos”,
“Tainá 2”) é extremamente corajoso. Até porque não finalizou um filme curto e
sim um longuíssimo longa-metragem (duas horas e vinte minutos de duração). As
“subidas” definitivamente são as expressões adjetivadas (sacadas coloquiais –
“trocadilhos” e “anedotas”) – “penteadeira de puta” (casa de show com problemas
técnicos); “estética lamentável dos anos oitenta”; “mágico decadente” (sobre as
roupas do período abordado); “Se vocês querem cantar sozinho, porque então
inventam um grupo vocal?”, “Você não é músico, é baterista”, “Tem que cantar
muito para ser folgado desse jeito”, “Gordo quando beija, não penetra”, “O nome Tião não faz
sucesso, está mais para auxiliar de escritório”; “Vou para os Estados Unidos, a
matriz” (responde-se com “Nem foi a Rio das Ostras… tem que ir a um lugar que
dê futuro primeiro, Brasília, por exemplo”) – e também da ambientação dos
acontecimentos históricos (mesmo superficiais e com detalhes de caricatura
estereotipada – já que passa por transformações em Nova York, Rio de Janeiro,
São Paulo, Londres, e pelo dia três de fevereiro – o “dia em que a música
morreu”) e musicais (Carlos imperial, Roberto Carlos e Erasmo, Nara Leão,
versão “tijucana” dos sucessos de Hollywood, Mallu Magalhães cantando Bossa
Nova, “o gosto refinado da Zona Sul” – eis que se rebate “Muito acorde essa
música” – etc.). É um filme família. Exemplo perfeito para ser apresentado no final de ano na Rede Globo (tanto que no final há um especial-homenagem do canal com imagens de arquivo de um Tim Maia
“irreverente”). Os maniqueísmos (até sua “delinquência” e “cretinice”) traçam a
“salvação” com final trágico, mas induzido à moral e aos bons costumes. Passa-se
por uma “jornada sem limites”, drogas, “lugares sórdidos”, “negros que corriam
ao sonho americano”, violão em um presídio dos Estados Unidos” (liberdade poética, talvez), pela “televisão
mandando na música”, por ácidos, pela consagração de ser “a voz do Brasil”, por
“Angela Davis, uma gostosa”, pela “incineração do cérebro”.  Concluindo, um filme que os “altos” ganham dos
“baixos”, em uma briga despretensiosa que faz do ator protagonista Babu Santana
um “Tim Maia” legítimo (que brilha, arrepiando, no palco), sem esquecer de
Robson Nunes (Tim Maia jovem); Alinne Moraes, a Janaína, que encarna um papel
de “macaca de auditório” (uma “groupie” a La “Quase Famosos”); Cauã Reymond
(sendo Cauã Reymond) e seu elenco de apoio. Não há como não se “entregar” a “Você é algo assim, é tudo pra mim… é como eu sonhava Baby”. Trocando em miúdos, falta ao filme mais “cretinice”, com perdão da expressão, “porra-louca”. 

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