Metáforas Pop-Expressionistas

Por Fabricio Duque


Uma das características da estrutura narrativa da Marvel é a fábula metafórica.Mas em seu mais recente filme “Guardiões da Galáxia” acontece a exacerbação elevada ao cubo desta estética, utilizando-se até da metalinguagem ao reiterar o uso. O elemento comercial do entretenimento (tiro, porrada, bomba e naves estelares) não é deixado de lado, é claro, sendo a exibição em formato de terceira dimensão. A trama “expressionista” e “pélvica” conduz o espectador ao universo sôfrego de uma criança que acabou de perder a mãe de câncer. O protagonista “Senhor das Estrelas” embarca no processo de aceitação da perda, imaginando realisticamente um mundo invencível com “criaturas estranhas” e trilha-sonora dos anos setenta de “reverberações” passadas (“Hooked on a Feeling”, de Blue Swede; Jackson 5; The Runaways; Marvin Gaye). Inevitavelmente, aludimos, implicitamente, ao filme “Onde vivem os Monstros”, de Spike Jonze e explicitamente a “Footloose” com Kevin Bacon. É “surreal” a quantidade de referências existenciais projetadas. Percebemos o pai “autoritário” e os amigos “estranhos”, ressaltando a filosofia americana de que “a verdadeira família se escolhe e não a que se recebe”. Há humor perspicaz e ingênuo (sem piadas sexuais), de picardia infantil, verdadeira e cruel (assim como as crianças são). Todos ali são diferentes e únicos, sofrem “bullying” e estão à margem por tentarem viver na autoconstrução da confiança de mão contrária. Suas sobrevivências são batalhas constantes, quase diárias de vencer o “inimigo”, que se apresenta como o “sentimento-vilão”. O grande detalhe positivo observado foi a mitigação quase total da característica sentimental-cliché. A “aventura” do crescimento encontra defesas emocionais, físicas, sociais e políticas que precisam ser vencidas e, principalmente, aceitadas, como a relação paterna e a transposição ativa da culpa ao patamar de “saudade” resignada de ente falecido. O diretor americano James Gunn (II) (de “Para Maiores”, “Seres Rastejantes” e que já prepara a continuação de “Guardiões da Galáxia” proporciona diversão garantida aos pequenos, “pseudo-grandinhos” e  “grandões”, gerando risadas, gargalhadas, lágrimas e silêncio obstinado da plateia (assistido em uma cabine de imprensa). Quando uma tragédia acontece, é mais que normal vivermos um sinestesia apocalíptica, quase igual ao cenário de um videogame “zumbilesco”. Os medos do início podem até se tornar amigos. Tudo dependerá do tempo e intensidade do processo. No caso desta perda narrativa do filme em questão aqui, ao introjetar uma galáxia egocêntrica, o protagonista (Chris Pratt, de “A Hora Mais Escura”, “Para Maiores”, “Ela”) experimenta uma liberdade solitária (mesmo com seus recentes amigos) e repete o conhecimento do que já teve, ensinamentos advindos do meio em que vivia,  principalmente de sua mãe, como por exemplo David Bowie, que cria a atmosfera nostálgica da saudade vivida no momento (“big boys don´t cry” – “garotos grandes não choram”), com o playlist mais “awesome” de todos (“I’m Not in Love”, de 10cc; “Come and Get Your Love”, de Redbone; “Go All the Way”, de Raspberries; “Hooked on a Feeling”, de Blue Swede; “Moonage Daydream”, de David Bowie; “Fooled Around and Fell in Love”, de Elvin Bishop, “Cherry Bomb”, de The Runaways; “Ooh Child”, de The Five Stairsteps; “Ain’t No Mountain High Enough”, de Marvin Gaye e Tammi Terrell; “I Want You Back”, de The Jackson 5; “Escape (The Piña Colada Song)”, de Rupert Holmes; “Spirit in the Sky”, de Norman Greenbaum. Imperdível. Esqueça os “pés atrás”, ouça as músicas acima e “dance” até o cinema.

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