Por Filippo Pitanga

Godzilla não era um mito tão forte no Ocidente quanto sempre o foi no Japão. Apenas em 1998, com a versão USA/MTV do diretor importado Rolland Emmerich é que o réptil gigante, adulterado por radiação (crítica à Era de disputas nucleares), realmente ganhou o senso comum do mundo. Mesmo num “pipocão” galhofeiro e assumidamente “B”, no qual a criatura emulava o visual Tiranossauro Rex dos sucessos da série Jurassic Park, ainda assim o elenco com nomes como Matthew Brodderick (eterno “Curtindo a Vida Adoidado”), o francês pop Jean Reno (“O Profissional”) e o comediante Hank Azzaria (“Os Simpsons” e “Gaiola das Loucas”) conseguiu marcar pelo carisma. Quando anunciaram um remake mais fidedigno e científico, e com elenco ainda mais internacional (do calibre da multipremiada diva francesa Juliette Binoche, da inglesa Sally Hawkins e do japonês Ken Wantanabe), a promessa mínima seria superar o predecessor. Jamais poderia se conceber que o filme poderia decepcionar tanto (salvaguardando talvez o prazer dos mais aficionados na maior fidelidade e na direção de arte)! A começar por desperdiçar seu maior trunfo: começando a ênfase no lado científico, reúne um casal de peso com aparência de protagonistas: Binoche (que aparece no máximo 5 minutos em tela, como se tivesse apenas recolhido o cachê) e o crédito imbatível do nome mais quente alternativo americano do momento, Bryan Cranston (o Walter White do mega hit “Breaking Bad”). Cranston começa liderando com firmeza, aproveitando seu talento de metamorfose kafkaniana, enlouquecendo para entender os efeitos que destruíram sua cidade e sua usina nuclear… Pois num giro Copérnico, o foco altera do pai cientista para o filho que ele alienou e agora é militar e tem sua própria família alienada (um aqui super mal aproveitado Aaron Taylor-Johnson, de Kick-Ass e Anna Karenina), muito mais testemunha passiva do que fio condutor atuante… O problema é que Cranston era o único carisma narrativo até então, e o filme se esvazia assim que a câmera começa a seguir seu filho repetindo a historinha familiar do pai em subtramas vazias… Cogitar-se-ia que Ken Wantanabe (“A Origem” e “Cartas para Iwo Jima”) e Sally Hawkins (dos soberbos “Simplesmente Feliz” e “Blue Jasmine”) pudessem salvar a película, ao invés de ficarem igual “barata tonta” (ele sempre estupefato e ela sua sombra anuente); ou que o próprio réptil roubaria a cena…, mas nada disso! Sim, a produção merece aplausos por ter desenhado o melhor Godzilla até agora em meio a destruições em escala assombrosa! Além de às vezes ter jogadas de câmera interessantes, como ângulos de focos invertidos no 1º e 2º plano… Mas quem salva tudo por incrível que pareça são os efeitos sonoros, brilhantes, dando vida ao que não aparece e carregando nas costas os efeitos especiais que foram mergulhados numa escuridão exagerada para o 3D (cogita-se que a intenção fosse dar mais sobriedade e gravidade às ameaças – mas como fazer isso se a premissa culminará numa luta de monstros?! Sim! Há outros, fazendo o protagonista-título virar o “mocinho” canastrão!). Mas à luz do cinemão americano ter anunciado o remake de Power Rangers, parece discrepante Godzilla rejeitar se assumir como “filme de monstro” até quase ao final, dando ênfase ao lado humano atônito, a desandar todo o ritmo e cortando clímax após clímax, destruição após destruição (tentando dar uma de “Tubarão” do Spielberg que não mostra o monstro até o final), mas até lá são os efeitos sonoros quem dão vida a um filme que já inicia natimorto!

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