Por Francisco Carbone

 

Jasmine vive perdida em dois tempos, filme e personagem. O tempo do sorriso, da festa, das taças de cristal, de NY, do consumo, do presente; e um outro tempo, de dor, desesperança, bebidas ruins, de São Francisco,  preocupação, ilusões reais. E um real ilusório, um tempo do passado. Não há mais vez para Jasmine, e ela vive dos sonhos de outrora, ela, o filme e os EUA, nesse tempo onde tudo parece uma encruzilhada onde a decisão varia entre o ruim e o muito ruim. Tempo de recessão no bolso e na alma, parece dizer o mestre Allen… e a glória, pra onde ela foi? Ela voltará?
Num filme que metaforiza coisas muito óbvias sobre a sociedade americana no geral, e o universo frívolo do consumismo desenfreado em particular, Woody se reinventa numa das alegorias mais melancólicas sob a qual se debruçou, auxiliado por uma fotografia de palheta gradativamente tristonha, e um elenco brilhante que faz leituras certeiras sobre cada personagem, passando por inspirados Sally Hawkins e Bobby Canavale. Um elenco brilhante, e um plus chamado Cate.
Evidentemente Woody sonhou esse sonho tragicômico com Cate em mente, e viu em Tennessee Williams a forma exata para externar o ocaso de uma economia. Cate, sempre Cate, pega Jasmine pelos dentes e devolve ela em todos os sentimentos humanos possíveis, da raiva ao medo, da ternura ao horror, da alegria a insanidade. Uma atriz que atinge todos os pontos certos, na maior interpretação feminina da década.
Jasmine vai seguir, quebrada e doída, aos cacos, quase nada. O retrato de uma crise que vai dos EUA ao Cinema, provando que só os grandes sobreviverão. Os grandes países, os grandes personagens, os grandes diretores e as grandes atrizes. Quanto a Woody e sua Cate, a eternidade já chegou.

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