Por Fabricio Duque

Todo cinéfilo que se “preze” tenta, com todas as forças da alma sobrenatural que tem, assistir todos os filmes dentro de todo Festival do Rio. Sim, a palavra é quantificada ao exagero. Não há meio termo, é oito ou oitenta. No início, demora-se horas para que a grade seja construída. No meio, corre-se de cinema a cinema, horário a horário, aceitando a fome, sede, e o cansaço como libertações catárticas da vontade esquizofrênica de se estar em um sala escura. Sim, sabemos. Ninguém entende o fato da escolha de cinco filmes por dia, talvez seis. E quando o dia ajuda, quiça sete. Nossa! Dizem. Assim mesmo com superlativos julgadores. 
Ainda no meio do Festival, o cinéfilo sofre com ansiedade, carência, agitação, desespero, perdas fílmicas (por culpa própria ou dos próprios organizadores). E então, instaura-se um surto incontrolável, como um vírus físico. Muitos são os motivos. Atrasos nas sessões, cancelamentos, mudanças de horários (e até dias), chaves incompatíveis (ou com erros) de DCP (a forma digital do 35mm), trânsito, celulares que tocam durante as exibições (assim como pessoas conversando e ou narrando e ou comentando os filmes), sacos diversos que geram a sinfonia do barulho, pipocas mastigadas em um longa-metragem silencioso, casais apaixonados que caíram de para-quedas, protestos – este último integrando o Festival do Rio na categoria de visibilidade política (quase um Festival de Cannes 68), enfim, entre outros tantos problemas, o que foi dito já é causa suficiente para estímulos à loucura individualista dentro da coletividade. Há idosas que chutam cadeiras, outros que xingam, outros que partem para violência da agressão física, há aqueles que brigam contra idiossincrasias alheias – como o odor de “xixi” de um senhor e há os que reclamam de tudo, incluindo todos os filmes (nada está satisfeito e ou bom o suficiente). Não vou negar. Irrita sim, e muito, principalmente este último. 
Até porque adentramos em um universo alienante de apenas observar o ser de outros ficcionais. Esquece-se completamente da própria existência. Vivenciamos “personagens” que riem, sofrem, cometem delitos (moralistas e ou politicamente incorretos). Estamos ali, “abertos” ao que querem nos contar. Se analisarmos por este lado, então, talvez, possamos defender o comportamento da intolerância irrestrita. 
Debatemos (e muito), conversamos, trocando comentários. E sim, com absoluta certeza, todos tornam-se críticos inveterados. Todos querem exacerbar a opinião maniqueísta. Mais uma vez, o total define o caminho a seguir. Muitos querem discordar (sentem bem, porque são assim), outros impõem ideias radicais (e intransigentes) como definitivas e há aqueles que conversam e que aceitam o embate cultural. Um deles, da última categoria aqui descrita, é o crítico de cinema Francisco Carbone. Não negamos. Brigamos sim, e muito. Mas com todos os argumentos e explicações saudáveis. Somos praticamente Yin-Yang. Assim, nossas “discussões” estão no “ringue”. Fisicamente? Nunca! Somos guerreiros, que usam o pensamento aguçado como arma de modificação e persuasão. 
Discordamos em “A Garota de Lugar Nenhum”, “Gravidade”, “O Homem das Multidões”, “Sonar”, “Sozinha”, “The Zero Theorem”, “Periscópio”, mas também concordamos em muitos: “Heli”, “Tatuagem”, “A Grande Beleza”, “Nebraska”, entre muitos e tantos. E tudo pode ser conferido aqui.
Nem tudo são flores no Festival do Rio, que considero de uma crueldade mórbida (380 filmes é humanamente impossível – com protestos impeditivos então nem se fala). Perdas acontecem e machucam, como não assistir “Belém” e “Quando Cai a Noite em Bucareste”. Não vi. Coração doeu. Mas o outro “boxeador” cultural conferiu e gostou. A “invejinha” (de cor branca, sempre) acomete a alma.
Hoje o ciclo é encerrado. Com a premiação dos melhores da Première Brasil, espera-se a repescagem e então algo estranho acontece. Alguns desencadeiam a depressão, outros despertam a gripe, todos sofrem a abstinência do vício interrompido bruscamente. Cinco em um dia. Nada no outro. É dura a vida de um cinéfilo, mas se perguntar a qualquer um, o que se perpetua é a frase: “Estou ansioso para o próximo”. São loucos mesmos. Confesso. Os melhores. Cinema é isso. o tudo. Assim mesmo, superlativamente sem ressalvas. 

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