A Liberdade Reacionária de Um Cotidiano Que Apenas É

Por Fabricio Duque

 

É extremamente compreensível que quando um filme gera o impacto da adoração, necessite-se de um tempo para que as ideias possam ser devidamente absorvidas e contextualizadas, principalmente pelo refrão “tem cu, tem cu, tem cu…” da música de apoio popular que gruda igual chiclete no imaginário do público. “Tatuagem” já se apresenta com status de obra-prima por causa do sucesso que recebe pelos lugares que passa. Este é um exemplo de que é o diretor que faz o filme. Hilton Lacerda destacou-se pelos roteiros de filmes como “Amarelo manga” (2002) e “Febre do rato “(2011), “A festa da menina morta” (2008), “Árido Movie” (2006); co-dirigiu o documentário “Cartola”, mas é com sua estreia na ficção de um longa-metragem que mostra total genialidade em conduzir a conjugação de texto, interpretação, montagem, enfim, os elementos responsáveis pelo equilíbrio fílmico.
O diretor, prolixo e apaixonado, apresentou seu filme em dia de mudança, devido aos protestos de professores no Centro do Rio que impossibilitaram o cinema Odeon. A narrativa busca a epifania visual e a afetação gay para criticar os estereótipos, confrontando o intrínseco do ser e exacerbando o comportamental. Assim, realiza a imersão do espectador ao universo abordado. É o teatro pernambucano da contra-cultura, lugar que artistas experimentais procuram abrigo. Os diálogos debochados, “ogros” (“Peidos Poéticos”) e ou sarcásticos (“Dê um minuto de silêncio a sua boca”) soam como poesias da sabedoria popular. É inegável não referenciar a “Priscilla, a Rainha do Deserto” (pelo desdobramento do filho e dos figurinos espalhafatosos”); a “Dzi Croquettes” (pelas “perfomances”); a “Madame Satã” (pela estética visual).

É o cotidiano naturalista, regido pelo incrível ator Irandhir Santos e por seus coadjuvantes (que interpretam pelas sutilezas – como um olhar que diz tudo). Há muitas formas de dar voz à revolução. Alguns tentam ganhar no grito (como “Febre do Rato”), e outros (como o filme em questão aqui) caminham pela técnica perfeita. A liberdade, ser ateu (“Não existe pecado não. É invenção”), a maconha, o espaço coletivo (“Estilosa pobreza de criativa falta”), os shows “reacionários” e ou apenas ser um homossexual no quartel já são indicativos suficientes de discurso político da intolerância ao sistema. Mas esta tal liberdade sexual (“sem contrato com ninguém”) torna-se hipócrita se o gostar acontecer, gerando ciúmes e “descaramentos”. Convivem com a utopia, a censura, os julgamentos alheios (precisando ser defensivo todo tempo), espetáculos proibidos, enfim, uma vida “imposta” e ou “escolhida” do submundo existencial. O longa-metragem é arte porque não precisa impor a mensagem. É leve, simples, determinada, intuitiva, sentimental, sexual, divertida, intencional, livre, natural e de obrigatório discurso.

 

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