Por Francisco Carbone

É incrível como o ser humano não vive sem o ‘mastigado’, o ‘fácil’, o ‘batido’. O filme instigante do diretor argentino Santiago Palavecino vem continuar a tradição que os festivais de cinema costumam cultivar, ao questionar mais do que responder, ao gerar mais dúvida do que esclarecimento. O cinema como obra de transgressão: eu acredito, e eu quero. Igual a ele já vimos esse ano o estupendo ‘A Garota de Lugar Nenhum’, ‘As Lágrimas’, ‘Encontros a Meia Noite’, ‘O Homem das Multidões’ e tantos outros, que se interessam mais pelo caminho do que pelo fim da viagem, mas talvez esse argentino seja o mais radical de todos mesmo. Como eu disse, o filme informa pouco e isso é mérito: Celina vai passar um tempo na casa de uma amiga casada, numa cidade afastada. Na ânsia de curar angústias e medos, a jovem não sabia que estava indo encontrar o exato oposto a isso, quando conhecer Paula, Maria e Nene, três meninas que vão levá-la a uma realidade (realidade?) que mistura vida e morte a todo o tempo. E isso é o que dá pra extrair como sinopse no âmbito mais amplo da palavra. Na verdade, muito pode ser como pode não ser; o cinema não deveria ser tão definitivo e fechado em si. Uma experiência cinematográfica pode ser ampla e irrestrita, aberta a múltiplas interpretações e de escolha pessoal. Grandes filmes podem e devem permitir a participação do espectador no seu desenrolar, e ‘Algumas Garotas’ nos convida a sair da passividade e mergulhar num pesadelo cheio de símbolos e camadas; cabe a nós desenrolar o novelo.

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