A Tristeza é Patológica

Por Bruno de Souza

 

Segundo o dicionário Aurélio o significado de realidade é: “Existência efetiva: a realidade do mundo exterior”. Então, como definir o que é realidade? Os conhecimentos mais básicos diriam que tudo aquilo que pode ser visto e palpável, ou seja, aquilo que está ao nosso redor (e ou fatos comprovados) seriam  realidade. A ficção surge nas artes como modo de representação do real. A própria noção do “Eu “está atravessada por esse tom ficcional. Quando afirmamos que “eu sou isso, ou sou aquilo”, um tanto de imaginação (de ficção) entra em jogo. Para Buñuel, percursor do surrealismo, a função do cinema não é “representar a realidade” mas poetizá-la. Ao se realizar um filme, tanto documental, quanto baseado em fatos reais, chega-se à conclusão que se é quase impossível expressar a realidade ou até mesmo representa-lá. O cinema (por suas épocas) foi utilizados por vanguardas com motivação de discursos políticos e sociais, desenvolvendo-se assim como modo de cinema como desabafo e transmissão de seus conflitos internos (e ideológicos), algo que só se permite no cinema autoral. Em “Elena”, a diretora Petra Costa faz uma jornada emocional procurando o reencontro-essência de sua irmã, que dá título ao filme. A narrativa é composta  parte por imagens de arquivo da família, proporcionando grande riqueza detalhista, intimista, nostálgica e de memória, construindo um perfil lúdico e sonhador da “personagem” principal, no qual desde cedo, já apresentava uma necessidade “urgente” da arte de representar como extensão da própria vida. A narração de Petra dá voz a emoção e estabelece coesão entre as imagens caseiras e líricas, capturadas a caminho de Nova York, procurando seguir os passos da irmã. Podemos referenciar a cineasta Flavia Castro e seu filme “Diário de uma busca”, um documentário sobre a memória de seu pai, o militante Celso Afonso Castro. A estrutura do longa de Flavia, uma linguagem comum documental de entrevistas sobre a figura, diferencia narrativamente de “Elena”, porque há “exploração” consistente e “obrigatória” do sentimento sobreposto à memória. Podemos dizer, que em termos de linguagem, Petra utiliza referências de diretores como Terrence Malick e a “Árvore da vida”. A escolha do material para o filme foi meticulosamente pensado: narrativa estabelecida pela excelente montagem, proporcionando uma profundidade sentimental e sinestésica com o espectador, quase um trabalho artesão. O documentário flui como um balé de  lindas imagens ritmada por uma delicada trilha sonora como fragmentos de uma memória em construção, principalmente quando a diretora se refere diretamente a irmã, dando o tom de carta póstuma, mas acima de tudo de uma prestação de contas com a Elena que ainda vive dentro dela. A semelhança das irmãs transpõe o físico, englobando a voz, o jeito, a mente e os pensamentos. Petra com o filme deseja “exorcizar” a saudade, “oferecendo” um segundo adeus a irmã, para que ambas possam assim encontrar sua paz. O filme, além de ser retrato de uma mulher, passa a ser de três gerações (com anseios diferentes), mas com uma ligação mais que familiar. A mãe delas tinha o sonho de ser atriz. E prometeu a si mesmo que se não achasse o porquê (de viver) até os 16 anos, se suicidaria. Sendo “salva” pelo homem que seria o pai das meninas. Elena vai em busca de sua arte, para isso vai para New York na tentativa de trabalhar no cinema. Após tentativas frustadas ela chega a conclusão que sem a arte ela não tem o porquê viver, que este é o motivo de sua existência. Quando uma pessoa morre, ela some em espírito, alma e corpo. O sumiço é total, seu verdadeiro “eu” deixa de existir, para agora se transformar em vários, ocupados pela memórias das pessoas. Uma lembrança traz também o nosso sentimento explícito, então quando alguém morre ele se transforma no alguém de cada um. O ser humano vira aquilo que plantou na terra para com o outro. Petra era bem nova quando perdeu a irmã e se viu passiva da tristeza, carregando a saudade e a depressão, pensando, quase hereditariamente, em suicídio. Despretensiosamente, o filme se transforma numa experiência viva, com diversidade de temáticas e abordagem única, encontrando poesia na realidade e a beleza na dor. Dizem alguns autores que nada mais criativo que o sentimento da tristeza, algo que Petra utiliza com sabedoria e leveza . O longa é um exímio estilo de cinema, raro e estarrecedor com linguagem experimental e inovadora. Petra Costa torna-se uma grande promessa ao cinema e demonstra ter apreço pelas lembranças, como em seu curta metragem “Olhos de Ressaca” sobre o casamento de 60 anos de seus avós. Se ela vai investir no estilo e o transformar em uma identidade ou diversificar em busca de mercado só o tempo vai dizer. O mais importante é que “Elena” viveu em busca de fazer arte e teve que morrer para se transformar numa arte eterna.

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