A Fértil Metalinguagem da 
Coréia do Sul
Por Fabricio Duque
“A Visitante Francesa” configura-se como o mais recente filme (em estreia nos cinemas) do diretor sul coreano Hong Sang-soo (de “Ha Ha Ha”), que imprime em seus filmes a encenação realista do cotidiano. Os diálogos teatrais criam a atmosfera da simplicidade visual, intercalando aproximações (zoom) propositais (remetendo à estrutura da Novelle Vague francesa), a fim de fornecer ao espectador a possibilidade de se conectar com mais intensidade à história. No início, duas personagens conversam sobre algo irrelevante, depois uma delas começa a escrever um roteiro de cinema “para se acalmar”, gerando a metalinguagem fílmica da ficção dentro da ficção. A trama conduz pelos detalhes. O vidro quebrado da bebida Soju, o celular e o guarda-chuva são alguns que ajudam a montar as peças apenas referenciais. Hong Sang-soo convidou a atriz francesa (lógico!) Isabelle Huppert (de “Amor”, “A Professora de Piano”, “Em Nome de Deus”) para vivenciar a protagonista-“personagem”. Ela o conheceu três anos atrás quando realizou em Seul a abertura de uma exposição de fotos (como modelo). “Não faço altruísmo. Sou egoísta”, disse Isabelle, entre ironia e franqueza, sobre a escolha do diretor. A atriz vivencia três personagens: uma documentarista solteira politicamente correta; uma mulher casada que vai à Coréia para encontrar o amante; e uma recém divorciada sem princípios que tenta lidar com a separação. A trama, fruto da imaginação criativa da “escritora” metalinguística, invoca elipses temporais, projeções do querer, ora sonho, ora desejo, ora realidade, unindo o mesmo grupo de personagens de um balneário em “papéis” diferentes, como fantoches que recebem pronto o que interpretar. A língua é um caso à parte. O que poderia soar estranho e patético, aqui funciona perfeitamente. “A língua é o conteúdo do filme, um elemento dramático”, explica Isabelle (na máxima de sua atuação elegante), por ser uma francesa que dialoga em inglês com coreanos. A narrativa constrói a naturalidade instantânea, como o corte da unha e o “desconhecido” que ronca. “Ele pensa em filme vinte e quatro horas”, ela diz. Ele completa “Saberei o porquê do filme quando o estiver fazendo”. A conversa metafísica expõe a paixão incondicional pela sétima arte, inclusão mais que esperada, já que o diretor Sang-soo Hong também assume a função de roteirista. As cenas repetem-se com climas e ângulos diferentes, mas a estrutura é a mesma (na maioria das vezes, até os diálogos). “Temos muitos macacos barulhentos na cabeça”, diz uma amiga budista. É um filme de retalhos, que são entendidos por causa da escrita do roteiro em “tempo real”, que retrata e compartilha experiências universais (básicas e de material bruto do ser humano), relacionadas ao ciúme, desejo e traição. A visitante, nada mais é, que uma estrangeira, tentando adaptar-se ao pouco tempo da viagem, assim como o espectador que assiste a este filme. O diretor busca a nostalgia do cinema raiz, em que conteúdo é mais importante que a embalagem. Tem aparência leve e despretensiosa, aprofundando o questionamento dos elementos existenciais de forma simples e críveis, mesmo quando se parecem surreais. Em 2012, foi indicado a Palma de Ouro no Festival de Cannes. Um filme imperdível!

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