O Retrato de Mundos Particulares

 

Por Fabricio Duque

 

“Ha Ha Ha” integra o gênero de filme de autor, por imprimir características cinematográficas que buscam a referência especifica. No caso deste aqui, seu diretor sul-coreano Hong Sang-soo  (de “A Visitante Francesa”), queridinho no circuito de festivais internacionais, procura a simplicidade das ações expressas nas artes do cineasta francês Éric Rohmer, do pintor Cézanne e explicitamente nos filmes do diretor Yasujiro Ozu. Sang apodera-se do estilo bruto destas referências, lapida o material, transformando o progresso em direção a abstração. Conserva-se a estrutura fílmica presente nas obras do diretor: o cotidiano realista, simples e puro, reações exageradas e a auto-análise, que traduz aos pertencentes destas memórias, o que são na verdade,  estagnando a relação entre o concreto e o abstrato, gerando assim o equilíbrio do que se vê. A narrativa constrói a trajetória pelo viés do acaso do dia-a-dia e ou pela comprovação do amor transcendental. Outro elemento constantemente empregado é a metalinguagem. Usar o cinema para fazer cinema. O diretor de cinema Jo Moon-Kyeong faz uma viagem para uma pequena cidade costeira de Tongyeong, na Coreia do Sul. Lá ele encontra um amigo, o crítico de cinema Jong-sik Bang, e os dois se sentam para conversar e tomar algo. A sinopse explica as primeiras cenas, transpassadas em fotos em preto-e-branco, lembrando uma apresentação de power point. A narração, um diálogo destes dois amigos. E o que se diz é automaticamente recriado na tela ao espectador, que não sabe se é verdade ou não, já que se parece uma reconstituição da história. Na verdade, são memórias do verão misturadas como um catálogo de recordações e compartilhadas entre eles. Cada vez, um conta sua parte, e assim quem assiste observa a estrutura de um filme coral, pois as mesmas pessoas, interpretando os mesmos personagens, passeiam entre as duas “tramas”, fechando o ciclo narrativo. Percebemos também um estilo documental, principalmente quando a câmera cria a interatividade pela utilização do zoom explícito e recorrente. O tom da narração e dos diálogos quer a filosofia existencialista, analisando o cotidiano pela comédia (idiossincrática exacerbada) da vida privada, mostrada pela percepção “bêbada” dos contadores. Até que ponto a verdade não é apenas uma projeção do que se deseja lembrar? Isso talvez explique a intensidade das reações interpretativas, apresentadas extremamente críveis mesmo quando surreais. “Quem não gosta de filmes?”, pergunta-se. O humor apresenta-se de forma contrastada: um depressivo que ri muito, a perseguição do objetivo amado, a co-dependência maternal – estimulando a carência e o drama, discursos politizados, entre outros. “Saber exatamente o que quer. Isso é inteligente”, diz-se. Há também auto-ajuda suavizada, tentando mitigar os clichês e indicar o contexto apenas, que é “operada” pelo roteiro, também do diretor, pela bipolaridade dos personagens, ora estão felizes demais, ora choram sem parar, desencadeando situações sentimentais de uma incondicional infância. A narrativa segue detalhando elementos indicativos: exemplos do boné e da bebida. É um filme de instantes. De memórias contadas. Assim, o roteiro poderia encontrar embasamento a um possível não concatenamento das ideias. Mas não. Sang consegue finalizar o ciclo apenas pelo acaso e o querer de cada um. Concluindo, vale muito à pena assistir! Em 2010, vencedor do prêmio Un Certain Regard, no Festival de Cannes.

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