Um Filme Que Acredita Até o Fim

Por Fabricio Duque

Como podemos mensurar os sonhos de alguém? A pergunta retórica questiona o empenho individual que cada um imprime na própria trajetória da vida, buscando o querer e o ser, apesar das dificuldades do caminho (que são muitas). Um dos pontos existenciais mais importantes, tão massificado nos livros de auto-ajuda, é acreditar e perseguir o sonho até o fim. “O Último Elvis” representa o longa-metragem de estreia do diretor Armando Bo (que co-roteirizou “Biutiful”, de Alejandro González Iñárritu) e conta a história de um artista cover do astro Elvis Presley. O cantor das “multidões”, de Memphis, Estados Unidos, morreu aos quarenta e dois anos, em 1977, e colecionou fãs ardorosos, que se vestem igual, tentam cantar da mesma forma, projetando nisso pausar o momento atual, o inserindo na nostalgia do passado. Na verdade, não é um filme sobre Elvis, mas uma película que retrata a “loucura” incondicional de alguém por um ídolo. “Eu nasci assim, com a voz (idêntica a do Elvis)”, frase dita pelo protagonista. O Elvis ficcional (ou Carlos Gutiérrez – dito quase sussurrado para que um nome não estrague a crença absoluta do personagem principal para com ele e com os outros) é interpretado pelo fantástico ator estreante John McInerny, que leva às últimas consequências a frase popular, “Elvis não morreu”. Entender os motivos que um indivíduo encontra para deixar de ser o “eu” e passar a ser o “outro” em tempo integral, é sem sombras de dúvidas um trabalho à psicanálise, que muito provavelmente irá analisar o tema pelo conceito da auto-aniquilação da existência humana, invocando a definição de baixa estima pelas interferências do meio em que se vive. Carlos “Elvis” precisa vencer as provações mundanas, como se apresentar para “bêbados” e idosas; competir com outros imitadores; conviver com a mãe internada, uma filha que sofre de “autismo” social, uma ex-mulher que sofreu um acidente. São dificuldades que o protagonista as recebe com a mente do artista adorado e não a dele. Como por exemplo, em um show revolta-se no palco (igual Elvis fez) e o final do filme (as consequências projetadas e sistematicamente pensadas do passeio turístico à residência oficial do “Rei do Rock” – que não contarei para não estragar a surpresa – só dizendo que tudo acontece quando a ficção completa quarenta e dois anos). A narrativa conduz por uma brilhante câmera, que passeia ambientando e observando, sem limites, os personagens e o local ao redor. Mas nem tudo é perfeito. A trama, talvez por se desenvolver em quase noventa minutos, corre para dar conta de todos os elementos apresentados, desvirtuando o equilíbrio entre a história apresentada e a percepção induzida do espectador. As reações acontecem rápidas demais, como o amor aflorado e co-dependente da filha em tão pouco tempo. Mesmo assim, o contexto é resolvido, amarrando-se pelas interpretações naturais e coloquiais. O destino então apresenta uma difícil decisão, Carlos deverá escolher entre seu sonho de ser Elvis e sua família. Concluindo, um filme obrigatório de assistir principalmente pelo ator principal, pela câmera e pela trilha sonora, óbvia lógico, de Elvis Presley. A música do início, “Also sprach Zarathustra” (a mesma de “2001” de Kubrick), cria a metáfora  do material bruto intrínseco que cada um tem como propriedade e personalidade. Inevitável não dizer também a conveniência de lançamento deste filme. Aproveitando-se da atualidade religiosa da escolha do Pontífice argentino, torna-se impossível não referenciar que o último Elvis tem a mesma nacionalidade, algo como uma “reencarnação” em uma mesma existência corpórea. Persegue-se o sonho até o fim, tanto na narrativa ficcional, quanto na metalinguagem fílmica. Em 2012,  foi o vencedor do Horizons Award no Festival de San Sebastián e indicado ao Grande Prêmio do Júri do Festival de Sundance. 

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