A Maestria do Teatro Ensaiado da Nova Versão de Tolstoï

Por Fabricio Duque

É impossível limitar e mensurar a criatividade de se contar uma história que já foi traduzida em inúmeras formas e estilos. A obra do escritor russo, Liev Tolstói, dividiu-se entre versões ao teatro e ao cinema (este último com as mais conhecidas de 1935, 1948, 1985 e 1997). Cada qual com seu estilo próprio, autoral ou não, mas sempre diferenciando a narrativa. O filme do diretor britânico Joe Wright (que parece sentir-se confortável adaptando obras literárias – realizou “Desejo e Reparação”, “Orgulho e Preconceito”) escolhe a versão teatral estilizada de um balé cinematográfico, confrontando a narrativa ao imprimir um sutil realismo dentro do sarcasmo implícito da futilidade aristocrática. O que chama atenção em “Anna Karenina” é sem sombra de dúvidas a condução da própria trama. A câmera passeia com maestria e elegância, retratando a história por ações e reações ensaiadas (incluindo a exposição de troca de cenário). O longa-metragem apresenta-se grandiloquente, transpondo perfeição visual ao épico amoroso mais famoso de todos os tempos. A grandiosidade atinge também o elenco, que inclui Jude Law (o marido), Aaron Taylor-Johnson (o amante), a fantástica Emily Watson e a protagonista “queridinha” do diretor, Keira Knightley (fez os dois filmes adaptados e conhecida por “O Método Perigoso”). Preciso digressionar quanto a atriz principal. Há um ditado que diz que quando o santo não bate, não há o que fazer para transformar uma percepção negativa em positiva. É exatamente isso que absorvo ao assistir as interpretações de Keira. Talvez seja o sorriso clichê ou a mesma expressão de dor e ou felicidade que usa nos seus papéis. Talvez seja a falta de naturalidade, quase preguiçosa, de representar. Meus conceitos mudaram quando vi o filme de David Cronenberg e então, em minha humildade, dei a ela uma segunda chance. E não é que a minha atriz “bloqueio” atende ao que o diretor em questão aqui objetivou. Não é excelente, mas também não é tétrico. Agora, quando se chega ao quesito técnico, não tem para ninguém. Direção de arte, cenário, figurino (prêmio no Oscar 2013), montagem, som, edição de som, fotografia, enfim, o resultado encanta e surpreende devido ao alto grau de qualidade. Na Rússia de 1874, Anna Karenina (Keira Knightley), jovem aristocrata casada com Karenin (Jude Law), um alto funcionário do governo, envolve-se com o Conde Vronsky (Aaron Taylor-Johnson), oficial da cavalaria filho da Condessa Vronsky (Olivia Williams), chocando a alta sociedade de São Petersburgo. A sinopse traduz a história simples, para que possa aprofundá-la dentro dos valores morais e éticos de cada um. O julgamento alheio sempre foi um determinante nas obras de Tolstói  levantando a bandeira da contracultura, qualquer que fosse ela: as “imperfeições” dos indivíduos nunca eram descartadas, pelo contrário, desmascaradas. A hipocrisia retratava a alienação de se seguir regras da alta cúpula. Concluindo, um filme que não possui nada de comum, porque transpassou com a técnica estilizada um teatro realista, suavizando a própria história artificial, que foi projetada como característica definidora da condução ao espectador. 

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