O Super Tudo Metalinguístico de Um Ator em Metamorfose
Por Fabricio Duque
“Super Nada” representa o lado underground do cinema nacional, experimentando estéticas e narrativas, a fim de traduzir uma linguagem prejudicada pelas próprias deficiências de se fazer um longa-metragem no Brasil. Na maioria das vezes, a história conjuga-se com o questionamento crítico à sociedade como um todo. No filme em questão aqui não poderia ser diferente. A narrativa procura o independente, o alternativo e o amadorismo proposital (tom ficção-documental). A metáfora do título indica os medos, anseios, vazios e sobrevivências da difícil arte de um ator conservar a profissão propriamente dita. O diretor Rubens Rewald, de “Corpo”, “Mutante”, “Esperando Telê”, ainda  co-escreveu o roteiro de “Hoje”, de Tata Amaral, ainda divide a direção com Rossana Foglia, parceria presente na maioria de seus filmes. A trama objetiva fornecer uma análise crítica, sutil no entendimento, porém epifânico no processo de realização. As dificuldades de Guto (Marat Descartes, de “Trabalhar Cansa”, “Os Inquilinos”, “2 Coelhos”), um artista de rua que luta para se estabelecer como ator e ter reconhecido seu talento, simboliza os muitos “Gutos” que estão por aí, perdidos, apagados e invisíveis, criando-se um paralelo aos moradores de rua – que são percebidos apenas pelos olhares de quem tem a sensibilidade artística na alma – inseridos pela metafísica da cena inicial. Talvez, a estrutura de condução ao espectador se faça demorada. Assim, o meio (desenvolvimento da trama) reverbera uma atmosfera quase patética por incluir elementos exagerados e demasiados, como por exemplo, a animação introdutória do personagem apresentador de Super Nada.  A percepção explicativa (que faz todo sentido de tudo que foi apresentado) vem quase no final, nas palavras de Zeca (Jair Rodrigues), comediante de televisão do programa homônimo ao filme, e ídolo do protagonista, que luta pelo “lugar ao sol” apesar da carreira em decadência. O que o Zeca diz, traduz exatamente o momento de quantidade pretendida versus qualidade atingida, referenciando, explicitamente, o programa “Zorra Total” ao “permitir” que o coadjuvante sinta que, mesmo por um instante, possui fama, ilusória sim, de futuro, não. A grande chance de se estar no veículo caseiro projeta construções teatrais (constantes treinamentos, testes para propagandas comerciais e “faz-tudo” na arte de atuar) ao estrelato, porque poucos segundos são suficientes para que a qualidade vença a quantidade (assim se sonha). “Teste é teste. Pega qualquer um”, tenta-se. O programa, repleto de piadas grosseiras e sem sofisticação, traduz a nostalgia da época antiga, expressando um momento atual ultrapassado, datado e sem mais conexão com este passado, gerando a sensação de constrangimento e cafonice. “Inverter movimentos é quebrar a continuidade”, diz, entre ensaios corporais, comportando-se como poesia teatral, que se conflitua com a negação da receptividade alheia. A “sobrevivência” é ajudada pelo dinheiro e cumplicidade da mãe (Denise Weinberg, de “À Beira do Caminho”, ótima como sempre), pela generosidade sentimental da filha e pela co-dependência da “não-definida” possível namorada (Clarissa Kiste, de “Trabalhar Cansa”). A vivência de um ator inclui experiências que extinguem limitações. Tudo é permitido, porque a realidade ao redor precisa ser consumida, repaginada e regurgitada. Bebidas, drogas, beijos entre iguais e o acaso são essenciais ao processo interno e definidor, por planos longos e contemplativos de uma câmera sem dinheiro, mostrando a essência do auto-questionamento existencial. É como se os personagens  pensassem, “nadar e nadar e morrer na praia”. Ao escolher Jair Rodrigues, o diretor teve que aceitar a opinião dúbia. Definitivamente, vamos ser sinceros, o cantor não é ator profissional. E o improviso amador e ingênuo de deixar acontecer a trama procura dois caminhos: a aceitação plena de quem assiste (sem contestação pela qualidade – como na cena patética do Jingle Bell) ou a percepção de desastre contextual. Também não vamos ser radicais. Há equilíbrio entre o ruim e o bom, principalmente pela excelente construção interpretativa de Marat Descartes (que ganhou o Kikito de Ouro de melhor ator no Festival de Gramado 2012 – mais que merecido). O ator produz naturalidade do ser e do transpor. Se não fosse por ele, talvez o filme não se seguraria, já que ele metamorfoseia-se acertando a direção de um carro em um linha reta, por exemplo, mesmo com os constantes desvios, aceleradas e freios abusados. Podemos dizer que Marat é o Super Tudo. O super-herói da nova era, que salva produções cinematográficas indefesas. Concluindo, não perca!

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