Neo-Chanchada, 
O Novo Gênero do Cinema Nacional

Por Fabrício Duque

Se pensarmos que de tempos em tempos surge mudanças significativas no próprio universo, então não podemos esquecer que o mesmo também pode acontecer no “ficcional” mundo cinematográfico. A cada novo ciclo, “cria-se” ou, como se diz por aí “nada se cria, tudo se copia”, nós, caros espectadores, passamos por diversificados gêneros, ora misturando elementos já existentes  e ou exacerbando o limite de aceitação de cada um. No passado, o gênero Chanchada, “filão” descoberto pela produtora Atlântida, simboliza a busca pelo popular, predominando o humor burlesco, paspalhão, ingênuo, quase carnavalesco, parodiando o cinema americano a fim de atrair um maior público. As produções seguiam pela caricatura do cotidiano nacional, com anedotas cariocas e jeito malandro de ser. No novíssimo cinema, o de agora, a Neo-Chanchada, uma releitura do gênero referido anteriormente, mescla aquelas características com o lado sensual (sem o sexo propriamente dito) da Pornochanchada, que foram inspiradas em comédias de filmes eróticos europeus. É inegável que o comportamento atual mudou. A perspicácia sarcástica ganhou lugar, motivada pela liberação da máxima “sem censura”. Hoje, todos possuem acesso a tudo, sem limitações, fazendo com que a televisão retrate fielmente o verdadeiro comportamento social. A realidade transpõe-se pela audiência que consome “novos produtos”, e assim, “novos produtos” são gerados. Alguém lembra de “Tostines vende mais porque é fresquinho, ou é fresquinho porque vende mais”, a famosa campanha publicitária resumia uma tendência da época, que fica explícita na frase de Steve Jobs no livro “Biografia”, de Walter Isaacson, “Perguntado se queria fazer pesquisa de mercado, Steve respondeu ‘Não, porque os consumidores não sabem o que querem até que mostremos a eles'”. Talvez com isso, possamos entender melhor o gênero em questão aqui, criticado por muitos, mas com vitoriosa arrecadação, os filmes conjugam roteiros fáceis, palatáveis, divertidos, exacerbando o riso por bordões e gatilhos comuns. É direto, ora escatológico, ora agressivo, mas conservando boas sacadas de uma comédia de situações. A foto acima é do novo filme “Vai Que Dá Certo”, de Fábio Porchat, integrante deste novo núcleo. Há também, “De Pernas Para o Ar”, “De Pernas Para o Ar 2”, “Os Penetras” (até o diretor Andrucha Waddington rendeu-se ao estilo), “Totalmente Inocentes”, “Se Eu Fosse Você”, “Se Eu Fosse Você 2”, “Cilada.com”, “E aí, Comeu?”, “Até Que a Sorte Nos Separe”, entre tantos outros, principalmente com o apoio da Globo Filmes (realizando também, após um tempo, a versão televisiva, como é o caso de “A Mulher Invísivel”, este uma exceção à regra, visto uma superior qualidade empregada), e pela presença no elenco de humoristas, como Marcelo Adnet, Tatá Werneck, Ingrid Guimarães, Eduardo Sterblitch. O público alvo identifica-se pelos diálogos coloquiais, com clichês verborrágicos, expressões engraçadas (quase circenses) e pelo amadorismo, ocasionando a cumplicidade da opinião e da ideia apresentada. “É filme para não pensar. Sair do trabalho e se divertir na cadeira do cinema”, disse um dos espectadores entrevistado após o filme “Os Penetras”. O cinema, nesta nova fase, tenta igualar-se a televisão, produzindo um pacote único, equilibrando o gosto e expandindo a safra. Ao pesquisar na internet os colegas que escrevem, encontrei definições do tipo “besteirol ululante”, “demência cultural”, “globochanchada”. Confesso que este gênero não me atrai, e nem aprofundo críticas sobre estes filmes aqui. Mas devemos respeitar o gosto (subjetivo) alheio. Cada um sabe o que gosta (tudo bem, entro em contradição, se seguirmos a lógica acima de Steve Jobs), ou melhor dizendo, cada um tem o direito a gostar de cada coisa que quiser (talvez devido ao próprio conhecimento de mundo, talvez a própria personalidade). Não podemos julgar, até porque o talentoso diretor, José Eduardo Belmonte, já fez a sua homenagem em “Billi Pig”. São filmes de “majors”, produtoras “gigantes” (“peixe grande”), grandiosamente poderosas, que conseguem colocar os filmes em cartaz em muitas salas de cinema (às vezes em 600 em um único final de semana de estreia). Obviamente, por isso, a arrecadação ultrapassa os dois milhões. É bom, é ruim, é “lavagem cerebral”? Tudo pode ser, como não ser. Se há procura, há demanda, mesmo, que de modo ferrenho, acredite na teoria do bom e velho Tostines. 

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