Até o Impossível Tem Limites
Por Fabricio Duque

É com o slogan publicitário “Nada é mais poderoso do que o espírito humano”, que os distribuidores buscam divulgar o filme catástrofe “O Impossível”, dirigido pelo diretor espanhol Juan Antonio Bayona (de “O Orfanato”), sobre o tsunami que devastou a Tailândia na manhã de 26 de dezembro de 2004. A narrativa escolhida corrobora algumas características intrínsecas a este gênero. Há ações e reações em efeito, o exagero interpretativo (artificial) e dos acontecimentos, o clichê do sofrimento, a facilidade da reviravolta e do encontro. Juan escalou basicamente um elenco britânico. O casal protagonista, os atores Naomi Watts (de “Destinos Ligados”, “21 Gramas”) e Ewan McGregor (de “Trainspotting”, “Moulin Rouge”), precisa vencer os desencontros durante a tragédia para que a família permaneça unida (e viva). Nesta “jornada”, princípios morais vão sendo refortalecidos, como a solidariedade (dada pelos nativos desconhecidos), ajuda (e a crença incondicional) ao próximo, o esquecimento, por um momento, do “próprio umbigo” e a transformação de pré-conceitos, do filho (vivido por Tom Holland II), por exemplo, ao ser confrontado com a dura realidade. A sobrevivência individual, por incrível que pareça, necessita do outro para se concretizar, e também do “humor” do acaso. O roteiro de Sergio G. Sánchez opta por personificar o mar e a natureza, assim como o cineasta Clint Eastwood em “Além da Vida”, que coincidentemente ou não, tem quase a mesma cena da invasão do mar (com a câmera na água). A montagem apresenta-se ágil e dinâmica, criando a tensão natural. “Feche os olhos e pense numa coisa boa”, diz-se. Há também uma crítica à plastificação da felicidade em um resort de luxo, percebido pelos indivíduos que procuram os bens materiais em prol da própria vida. É inegável o arrepio, principalmente quando se utiliza o recurso cinematográfico do fade (a tela preta). É dramático sim (mas tem que ser assim), visto, citando novamente, que é um gênero comercial de filme catástrofe, mesmo inserindo elementos mais “cults” como a visceralidade – e escatologia – das feridas), tentando de toda forma despertar o sentimental que existe no interior de cada um. É um longa-metragem corajoso e insistente porque quer o choro do mais cético dos seres humanos. É tão comercial, que a figura do refrigerante Coca-Cola salva a sede e fornece energia suficiente para que o caminho tortuoso tenha um positivo resultado. Os gatilhos comuns são constantes e recorrentes, como a cortina fechada, a mãe que some da cama do hospital como Meca, a corrida ao pai encontrado pelo “calção feio” de praia, entre tantos outros. Definindo “O Impossível” em miúdos, podemos dizer que é manipulador ao extremo, conjugando o limite tênue da emoção com o da realidade (como o chão vomitado do hospital, eca!), exagerando demais da conta, transcendendo o equilíbrio aceitável. Concluindo, um filme over, tanto no lado comercial, quanto no pseudo cult, que deveria ser entregue ao espectador, no início da sessão, um saquinho para vômitos (aquele mesmo das companhias aéreas). Confesso que, neste exato momento, ao escrever isto, tendo como pressuposto toda lembrança do filme em questão, estou enjoado pelo “nojo” apresentado e pela forma como se conduziu a trama, por exemplo, quando os médicos (públicos!!!!) esperam a cena (melodramática) acabar, para que possam realizar a cirurgia. E assim esperar pelo final feliz previsível. Finalizo parafraseando um momento deste indicado ao Oscar 2013, “Fecho os olhos e penso numa coisa boa: o filme acabar logo”. Cruel? Direto? Antiprofissional? Decidido? Radical? Unilateral? Não, porque há vários momentos interessantes que não convém contar para não estragar a surpresa de quem se aventurar no escurinho do cinema. 

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