Escolha, Sim, Esta Película
Por Fabricio Duque

“Parece que o Chile só faz filme sobre Pinochet”, comentário ouvido sobre o recente filme do diretor chileno Pablo Larrain (de “Tony Manero”, “4:44”, “Post Mortem”). Não, há outros exemplos no cinema deste país. O filme “A Vida dos Peixes”, o existencialismo do auto conhecimento,  é um deles. E mais, se aprofundarmos o tema do filme em questão aqui, perceberemos que é sobre o meio da publicidade e propaganda, e que se utiliza da política como produto para acontecer. A narrativa segue a linha da simplicidade, com fotografia que parece uma imagem de VHS, a fim de construir a estrutura história, imergindo o espectador totalmente no contexto nostálgico. O roteiro, de Pedro Peirano, aborda o plebiscito chileno, em 1988, sobre o mandato do ditador Augusto Pinochet. Logicamente, há duas opções: o sim e o não. De forma manipuladora, esperada por essa convocação oficial, o Governo lança a propaganda do Sim (o povo está satisfeito e deseja manter o regime político). Gerando “trabalho” (e esperada perda) aos publicitários, a opção Não foi fornecida. É inerente que a positividade da palavra influencia as decisões de cada indivíduo. O “No” representa  lado negativo, o submundo, a novidade, o desconhecido, a revolução, a ingenuidade, o desafio, a luta que não deve ser levantada. É assim, tentando traduzir o momento passado e a sinestesia ao espectador, que a trama se desenrola, permitindo, a quem assiste, a cumplicidade da observação, com as tentativas, erros e reações patéticas dos limites da criatividade. Ser publicitário é descobrir a perspicácia do caminho seguido. É massificar a melhor ideia, “sofrendo” com as infinitas possibilidades do processo da “tempestade cerebral”. Por causa das “confirmações” quase certeiras do redor, a oposição aceitou a linha pensante do jovem René Saavedra (interpretado por Gael García Bernal, de “Diários de Motocicleta”, “Amores Brutos”, “Ensaio Sobre a Cegueira”, e que também realiza a função de co-produtor do filme em questão aqui) para liderar a campanha do “NO”, com poucos recursos e permanente vigilância dos guardas de Pinochet, Saavedra e sua equipe criam um  plano para vencer a eleição e libertar seu país da opressão, não se permitindo perder a oportunidade desta mudança literal, conduzida pela visão positivista da felicidade, que está na perspectiva de cada participante da sociedade tem de seu futuro. A audácia mostraria-se pela falta dos embates críticos. “No” seguiria sem revidar as “pedras” recebidas. Uma das características marcantes no cinema chileno é a naturalidade da arte de contracenar, com diálogos no tempo perfeito, transpondo a não percepção da interpretação. É como um documentário ficcional, parecendo que a câmera está escondida, gerando o estágio intrínseco do estar. Precisamos “tirar o chapéu”. A preparação de atores é o ponto mais importante, logo há superexposição da qualidade dos atores, que conduzem com maestria a história. Concluindo, uma “pequena” obra-de-arte, não pela duração (quase duas horas), nem pela qualidade contextual (que se expressa grandiloquente), mas pelo universo independente que se expande ao “mundo”, ganhando espaço na televisão americana, nos principais programa de variedades e entrevistas. Um filme simples, sem ser simplista, exacerbando a naturalidade interpretativa, sem clichês, sem gatilhos comuns e tentando ser um pouco “Argo”, porém, melhorado. Não é fácil ser publicitário. Avançar contra a corrente. O que vemos são formas de se vender um produto pela melhor ideia escolhida. “Os consumidores não sabem o que querem, até que mostremos a eles”, de Steves Jobs, criador da Apple, no livro de Walter Isaacson. Se perguntarem se deve ou não assistir a este filme, diga Sim para “No”. 

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