A Odisseia do Que Realmente Somos
Por Fabricio Duque
20/09 (às 11:25): TELECINE PIPOCA: “AS AVENTURAS DE PI”
Outros Horários 23/09, às 05:05; 03/10, às 19:35; 05/10, às 11:30

“As Aventuras de Pi” configura-se como o mais recente filme do diretor taiwanês Ang Lee (de “Banquete de Casamento”, “O Tigre e e Dragão”, “O Segredo de Brokeback Mountain”), abordando o tema da auto-superação diante das reviravoltas da vida, pelo aspecto espiritual. O longa-metragem busca na fábula existencialista a essência otimista de se crer no que não se vê. Caminha por dois caminhos antagônicos: ateísmo e religião, questionando cada lado confrontado. O filme conta a história de Pi (Suraj Sharma), uma abreviação de Piscine. Para que não recebesse mais bullying verbal, conduziu a outra interpretação, à matemática e seu 3,14. É baseado no livro de Yann Martel e declaradamente inspirado no livro “Max e os Felinos”, do escritor brasileiro Moacyr Scliar (que trazia a história de um refugiado judeu que deixava a Alemanha e cruzava o oceano Atlântico em um bote, juntamente com um jaguar). O diretor, também roteirista, incluiu outra vertente característica: a tecnologia dos efeitos digitais. O tigre, Richard Parker, “protagonista”, que divide a cena com o personagem principal, foi criado através da tecnologia CGI, tendo o verdadeiro, usado apenas em sequências em que apareceria sozinho, como quando nada no oceano. A perfeição visual é inegável, ainda mais por ser exibido em 3D. A trama pode ser traduzida por referências cinematográficas. Na Índia, a família, dona de um Zoológico local (inferindo “Compramos um Zoológico”), de Pi decide mudar-se ao Canadá. A viagem em um cargueiro não chega ao fim e o navio afunda (“Titanic”). No oceano, Pi convive no pouco espaço disponível com uma zebra, um orangotango, uma hiena e um tigre de bengala (“Arca de Noé”). Esta é o início da aventura da jornada de autoconhecimento e da massificação da sua crença espiritual. A vida “forneceu” a Pi princípios éticos e a possibilidade de entender o respeito ao próximo, no caso um tigre. É como se o colocasse constantemente em teste, o fazendo duvidar do que estava vivendo. Mas quando o limite parecia sem salvação, eis que o acaso resolvia, momentaneamente, o “problema” da fome e do cansaço (referência a “Náufrago”). Porém a vida “exigia” inteligência e perspicácia suficiente do “candidato” para que estivesse apto a ganhar tal benefício. O roteiro lúdico e realista é traduzido pela naturalidade empregada nas ações dos personagens. Entre digressões em flashbacks, devido à narrativa metalinguística de ter alguém contando os acontecimentos que passaram. Há outra inferência bíblica: Pi queria ver para crer. E aos poucos, entendia, por ele, as respostas via sinais que a vida o apresentava. E assim, acreditava mais em si mesmo ao captar os ensinamentos recebidos por “parábola” filosófica. Pi aprendeu a ler nas entrelinhas, a confiar na intuição e a se salvar pela existência simplista da natureza, principalmente quando encontra a ilha “encantada” (lembrando “A Praia”). Nesta fase, gradua-se na “aula” imposta, observando a beleza natural, mas criando a ressalva da sobrevivência (com seus medos e pré-conceitos adquiridos pela criação familiar). Mesmo se morresse fisicamente naquela hora, estaria salvo. Mas “Deus” quis que seu recado fosse transmitido ao mundo. A trilha sonora de Michael Danna (o mesmo que fez “Casamento à Indiana”, de Mira Nair) ganhou o Globo de Ouro de 2013 e conduz sem se sobrepor, criando a atmosfera perfeita, e de gênero new age, para que o espectador possa imergir completamente na aventura da busca por “acreditar no extraordinário”. Podemos observar também outra característica marcante na filmografia do cineasta em questão aqui. Ang Lee passeia pela moral do oriente e pela câmera do ocidente. Conjuga os dois mundos, criando o equilíbrio do limite tênue. Quem assiste realmente precisa acreditar no novo, no desconhecido, na emoção sútil despertada, na competência da direção, que une drama, comédia não clichê, tensão arrebatadora (como a cena do afundamento), amadorismo proposital, ingenuidade transformadora, despertando sentimentos internos guardados e não visitados. Esta, talvez, seja a “alma” de seu cinema, ensinando como um “guru” os insights dos frames absorvidos, personificando os elementos da natureza. Concluindo, muito se fala que “As Aventuras de Pi” é apenas uma propaganda de auto-ajuda espiritual ou que é o levantamento de “baboseiras” religiosas ou até mesmo que é uma forma de “engolir goela abaixo” ideias não racionais. Pode ser tudo, mas também não pode ser nada. É inerente a interpretação de cada um (vide a Bíblia) e que a visão individual (dotada de vivências mundanas diferenciadas) interfere sim e muito na absorção contextual. Uns são pessimistas, outros otimistas demais. A dica é encontrar o meio termo, esquecendo do primeiro, não tentando ser “realista” demais, e dosar a positividade de cada ato e pensamento. Acredite, é um filme necessário, otimista, com qualidade cinematográfica, extremamente bem construído, despretensioso e “amigo”, resultando em uma experiência exuberante e sensorial. Como curiosidade final, os diretores M. Night Shyamalan, Alfonso Cuarón e Jean-Pierre Jeunet chegaram a ser cogitados para dirigir este filme. Indicado a vários prêmios no Oscar deste ano.

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