Um Subjetivismo Cinematográfico
Por Fabricio Duque

Ao ser perguntada, pelo tabloide britânico, The Guardian, a diretora americana da Califórnia, Kathryn Bigelow, sobre o tema recorrente de seus filmes (homens e militares), disse que era “atraída por personagens provocantes”. A cineasta tornou-se “sensação” no mundo cinematográfico, e não foi por ter sido casada com James Cameron (que dirigiu “Titanic” e “Avatar”). Coincidentemente, a carreira de Bigelow no cinema começou em 1991 – com “Caçadores de Emoção”, com Patrick Swayze e Keanu Reeves – exato ano que se despediu “matrimonialmente”. A sua principal característica escolhida é a narrativa (com câmera) subjetiva. Ela tenta transpassar uma atmosfera documental à ficção, filmando planos com a câmera na mão, gerando o tremor, ora com tensão, ora com nervosismo, porém todas com o desejo de personificar o que se vê. Busca no espectador, um cúmplice, um observador, um “infiltrado”. Era como quisesse transformar retratação em experiência pessoal de campo. Não se sabe muito bem, o porquê de tanto estardalhaço de seus filmes, tanto que o penúltimo filme “Guerra ao Terror” ganhou inúmeros prêmios em Festivais de Cinema, e forneceu à diretora o título da primeira mulher a vencer a Directors Guild Award e a ganhar o Oscar de melhor direção. O Vertentes do Cinema não concorda com esta supervalorização, e o espectador pode conferir embasamentos a este longa-metragem aqui. Em seu mais recente filme, em questão, “A Hora Mais Escura”, Kathryn Bigelow corrobora seu estilo, abordando o tema da caça a Osama Bin Laden, que começou logo após o ataque as Torres Gêmeas, em Nova Iorque, em 11 de setembro de 2001. E “polemizou” a mídia ao usar cenas de tortura. “A guerra, obviamente, não é bonita, e nós não estávamos interessados em retratar uma ação militar livre de consequências morais. A tortura foi, como sabemos, empregada nos primeiros anos da caça a Osama. Isso não significa que foi a chave para encontrar o terrorista, significa que é uma parte da história que eu não podia ignorar”, disse a cineasta sobre as críticas geradas. Se o leitor permitir, gostaria de fazer uma digressão explicativa (e um pouco pessoal). Decididamente não entendo mais a estrutura opinativa das pessoas hoje em dia. Há um julgamento politicamente correto, que ao invés de se configurar uma evolução, retorna ao mais primitivo retrocesso libertário. As ideias padronizam-se, influenciando até mesmo os mais céticos formadores de opinião. Digo isto porque se analisarmos o cinema passado, não tão longe assim, encontraremos cenas de tortura psicológica e física, como por exemplo nas sequências de Charles Bronson. Ninguém reclamou até então. Eis que surge, “A Hora Mais Escura”, retrato de um acontecimento factual (visto que as imagens de tortura por americanos realmente existiram), desencadeando uma pergunta retórica: A realidade pode ser, de forma sensacionalista, aceitavelmente divulgada, mas quando querem transformá-la em cinema, não pode? Enfim, retorno da minha necessária inferência. Quanto ao quesito interpretativo, a escolha da atriz Jessica Chastain (de “Os Infratores”, “Árvore da Vida”, Histórias Contadas” e da produção mais assistida nos Estados Unidos (ainda inédita no Brasil), o filme de terror “Mama”, de Guilhermo del Toro), foi um “tiro” certeiro, pois se apresenta contida, desesperada, ansiosa, imponente e decidida, sendo ajudada, e muito, pelo “âncora” Jason Clarke, que já contracenou com ela em “Os Infratores”). O roteiro traduz-se em uma trama com elementos de espionagem, tentativas e erros em seguir pistas sobre o terrorista em questão, não medindo esforços para desmantelar o grupo inimigo paquistanês. Só que desta vez, a diretora “assassinou” os exageros das “piadas” sarcásticas (que não davam certo) em “Guerra ao Terror”, “dobradinha” com o roteirista Mark Goal, gerando, desta forma, diálogos mais realistas, secos, diretos e incisivos, descobrindo o equilíbrio sem apelar ao clichê verbal. Como curiosidade informativa, os dois foram pegos de surpresa durante a realização do filme com a morte “verdadeira” de Osama. Antes, a história girava em torno da caça ao líder saudita. Houve a necessidade da reformulação para centrar a trama (filmada na Índia) diante do assassinato. Concluindo, um filme que busca a tensão como fio condutor, repetindo o estilo da diretora, usando luz ultravioleta, tiros, papeladas, reuniões, fracassos, milhões de dólares e abordagens típicas do gênero. As “descobertas” (reviravoltas) são apressadas, talvez, prejudicadas pelo corte temporal. Se não fosse pelo alarde da tortura (a melhor propaganda ao longa-metragem), então pudesse talvez passar despercebido, por detectar-se uma narrativa arrastada, cansando o espectador, o fazendo olhar para o relógio (isto é, sem sombras de dúvidas,  a consequência mais “escura” de um projeto realizado). 

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