Existem Atores e Existe 
Daniel Day-Lewis

Por Fabricio Duque

“Lincoln” aborda a luta do décimo sexto presidente Abraham Lincoln, em 1865, pela inclusão da décima terceira emenda constitucional americana, que versa sobre a abolição da escravatura. Tornou-se um ícone e um exemplo por causa da desenvoltura bem sucedida que conduziu a maior crise interna dos Estados Unidos: a Guerra Civil Americana. O presidente é considerado um líder nato, tanto que há pouco tempo, o transformaram em um caçador de vampiros, ficção fantástica que metaforiza o quão importante suas ideias repercutiram no país. O simbolismo fantasioso faz com que a sua figura não morra nunca e que sejam eternas suas convicções de igualdade entre brancos, negros e mulheres, traduzindo-se “perante a lei”. A Ementa promulga “Seção 1: Não haverá, nos Estados Unidos ou em qualquer lugar sujeito a sua jurisdição, nem escravidão, nem trabalhos forçados, salvo como punição de um crime pelo qual o réu tenha sido devidamente condenado”. Na Seção 2, “O Congresso terá competência para fazer executar este artigo por meio das leis necessárias”. O longa-metragem integra a filmografia do cineasta Steven Spielberg, que diz “exorcizar seus demônios” em seus filmes. O diretor já havia tratado do mesmo tema em “Amistad”, o germe das primeiras medidas ao fim da escravidão. E categorizou sua carreira limpando a alma das atrocidades históricas. Spielberg abordou o holocausto em “A Lista de Schindler”; a caça ao Setembro Negro (o assassinato de atletas israelenses nos jogos olímpicos de Munique) em “Munique”; a invasão da China pelo Japão, em plena Segunda Guerra Mundial em “Império do Sol”, entre outros. O diretor sempre optou pela narrativa humanizada e romanciada (a maioria dos roteiros adaptada da literatura – e seguindo a linha unilateral, sem criticar o “produto” escolhido). Ele nunca escondeu a predileção pelo “falso” realismo, adicionando elementos emocionais (e extremamente mágicos – transformando um tema “pesado” em um desenho da Disney) de indução, como o foco nos personagens frágeis que precisam vencer as adversidades em prol da sobrevivência, como as crianças de “Império do Sol” e a da “A Cor púrpura”, principalmente pela música de John Williams (parceria de longa data), que imprime esperança, ingenuidade, liberdade de se poder tudo e dramaticidade, estimulando o choro do mais cético dos espectadores. Em “Lincoln”, baseado no livro “Team of Rivals: The Genius of Abraham Lincoln”, de Doris Kearns Goodwin, não poderia ser diferente. As características de seu cinema estão presentes, com um plus excepcional: a escolha do protagonista título para Daniel Day-Lewis. O ator britânico encontra-se em outra categoria de interpretação. Podemos dizer que não há percepção de atuação por sua parte, transpassando o papel com uma naturalidade tão entregue que é impossível a não imersão total de quem assiste. Daniel fez “A Insustentável Leveza do Ser”, “Meu Pé Esquerdo”, “Em Nome do Pai”, “Sangue Negro”, “Gangues de Nova Iorque”, entre outros, menores, mas necessários a sua construção de um ator que não interpreta, porque não teatraliza ações, insinuando sutilmente, mas com firmeza, o propósito do tema discutido. Um exemplo em “Lincoln” é a cena da reunião, quando bate na mesa e discursa. Só esta cena já pode ser considerada a fim de elevá-lo à categoria de melhor ator (ganhando o prêmio no Globo de Ouro 2013). Então, buscando uma opinião contextual antecipada, o filme em questão aqui apresenta-se de forma competente, como dito com música na medida certa (sem a superexposição), interpretações equilibradas de todos, com a cumplicidade de se buscar a naturalidade. Mas quanto à condução narrativa (visual e técnica), o filme segue a linha conservadora (talvez seja a proposta referencial contrastada com os republicanos) e opta pelo classicismo, utilizando-se da edição ágil, de planos e contra-planos rápidos, igualando-se à estrutura de um telecine (filmes produzidos para televisão), com enorme qualidade, é claro. É fato que mais e mais, a televisão e o cinema tentam ser uma coisa única, vide as novelas da Rede Globo, que usam frames cinematográficos de 24 quadros por segundo. Talvez a tendência descaracterize o cinema, misturando técnicas e procurando a audiência ao invés da corroboração da característica intrínseca (e primitiva) do cinema. Talvez, o diretor Steven Spielberg, queira mesmo a inovação radical, ou (pedindo desculpas pela colocação de minhas ideias) se comporte com a preguiça que atinge certos cineastas e ou (ainda) tenha se rendido a praticidade da realização dos filmes atuais. Em hipótese nenhuma, Lincoln comporta-se como um filme menos, apenas a sua transposição às telas configura-se um tanto banal demais. Recomendo. O filme tem indicações ao Oscar 2013.

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