“Nouvelle Vague”, de 1990, marca o começo do período da carreira de Jean-Luc Godard em que começa a produzir analisando seus antigos trabalhos, questionando se é possível continuar sendo diretor de cinema diante das condições impostas pelo cinema internacional comercial. Neste filme, Godard analisa a própria narrativa e a técnica cinematográfica. Aborda o retorno de um homem (Roger Lennox/ Richard Lennox interpretado por Alain Delon) que pode ou não ter voltado a vida, representando a metáfora do que já foi feito desde então, a referencia e a “transferência”. “O homem constrói os mistérios e a mulher descobre os segredos” e “você roubou minha existência”, são algumas das citações filosóficas que “pipocam” nos diálogos verborrágicos. Dentro de um videoclipe existencialista, há consistência, soando presunçosa em muitos momentos, como analisar o silencia pelo silêncio. O mais importante é o contexto, a palavra e a defesa da ideia (argumento). “Você não entende nada do meu silêncio”, diz-se entre perspectivas abstratas, percepções reais e utópicas, elipses (e músicas) em cortes secos e a nudez retratada sem volúpia. Até os personagens esperam também, discutindo morte, a estranheza do indivíduo, o simples ato de não responder ao que foi perguntado. As divagações misturam diálogos contrastados, capitalistas, realistas, humanizados, sarcásticos, blasé, estereotipados, altivos, exagerados no querer, gerando situações surreais. “O amor não morre, ele vai embora”, filosofa-se. Em outra cena, há divisão entre ricos e pobres, observados em “Eles, os ricos, são diferentes”, “Sim, eles têm dinheiro”. Outro ponto genial é a forma conduzida da fala e da imagem. Nem sempre o que se diz corresponde com a imagem, confundindo o espectador e desconstruindo o próprio roteiro. A figura do campo transpassa tom bucólico, uma resignação perdida no olhar dos personagens. Não há simetria. O que se apresenta é um jogo de colagem que busca em assiste montar o quebra-cabeça da linguagem, criando o paralelo com a alienação social que acomete o mundo sem direção e esperança (principalmente no quesito cinema como cinefilia e como resposta – e documento – às mazelas da existência individual de cada individuo que divide o lugar com outros próximos). Um trabalho antropológico da repetição na tela da estranheza das pessoas.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Artigos Relacionados