O Cinema Fantástico de Um Casal Com Ideias Perfeitas 

Por Fabricio Duque 

O cinema tem o poder, por si só, de ser extremamente subjetivo. Um mesmo filme pode transpassar perfeição para um ou a frase “uma droga” para outros. Uns irão adorar, outros odiar. A dicotomia entre sucesso e fracasso é geralmente acompanhada por argumentos, que podem ser embasados na técnica da crítica e ou por gostos pessoais. O preâmbulo serviu para inserir o leitor na construção da linha de raciocínio da análise do novo longa-metragem “Ruby Sparks – A Namorada Perfeita” do casal cineasta Jonathan Dayton e Valerie Faris, que fizeram sucesso de crítica e público com “Pequena Miss Sunshine”, considerado um dos melhores filmes indie de todos os tempos. Digamos que discordo da superestimação do anterior, mas invisto, fornecendo aqui argumentos suficientes a fim de convencer a ida ao cinema. Vamos iniciar pelas opiniões negativas. Quando perguntava se tinham gostado, as respostas eram: “nada de novo”, “filme bobo”, “não me tocou”, “é fofo, mas só isso”, “repetiram outros filmes”, enfim, por aí vai. Irei replicar com duas informações simples. Uma delas é que cinema é isso, sentir ou não. A outra, e a mais importante, é a que mesmo uma ideia “copiada”, se for bem feita, transforma-se e obra de arte, que é o caso de “Ruby Sparks”. É inevitável referências a “Harvey”, “Mulher Nota 1000”, “Mais Estranho Que a Ficção”, “Brilho Eterno de Um Mente Sem Lembranças”, porque usam um similar ponto de partida. O que devemos realizar neste caso é avaliar apenas o filme em questão. A narrativa constrói o protagonista como “diferente”, nerd, escritor (famoso) e solitário. Aos poucos entendemos que as sessões de terapia apenas completam a carência que o personagem principal sente e que há bloqueio nas relações interpessoais. A atmosfera lembra o diretor Woody Allen, pela verborragia cultural de mesclar o popular e o refinado, o notebook e a máquina de escrever (metáfora ao medo do crescimento e ao desejo de se viver – e sofrer – no passado). Exibido no Sundance Film Festival, a trama conta a história de Calvin, um jovem escritor que alcançou um sucesso fenomenal muito cedo e agora vive um momento de crise em sua carreira. Mas ele não enfrenta problemas só na esfera profissional, precisa resolver também sua vida afetiva. Finalmente, ele cria um inspirador personagem chamado Ruby, uma suposta namorada. Uma semana depois, Ruby aparece sentada em seu sofá. Calvin fica atônito com a aparição da moça, mas começa a gostar da ideia de ter encontrado um amor. Agora ele terá que saber lidar com a própria criação. Imagine poder inserir informações na pessoa que se está relacionando, como um chip e em tempo real? Os diálogos procuram o humor sarcástico sem ser agressivo, lembrando o estilo de Woody Allen,só que mais puro. “Adoro quando você diz bobagens”, diz o terapeuta. Ao criar a mulher “perfeita”, Calvin, vivenciado por Paul Dano (de “Pequena Miss Sunshine”, “Onde Vivem os Monstros”, “Cowboys & Aliens”), projeta gostos e sentimentos, mas Ruby (Zoe Kazan, de “A Vida Privada de Pippa Lee”, “Foi Apenas um Sonho”), o manipula com vontades próprias típicas do gênero feminino. São muitas referências e citações, conduzidas com sutileza real de uma direção segura, humanizando idiossincrasias, as tornando possíveis e identificáveis com nossas manias. “Escrever o que puder e desaparecer”, disse Salinger. O elenco ainda conta com Annette Bening e Antonio Banderas. Vale à pena assistir!

 

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